ENTRE FORMIGAS E CIGARRAS
Um dia desses entrei num boteco, bem precário desses que tem lá no Maranhão - onde a cerveja ruim de Itu, custa R$ 4,00 a garrafa e nem aparece ninguém pra sentar no colo da gente, porque cerveja nesse preço, só em z... -, acompanhado de um amigo. Sentamos e gaiatamente meu amigo pediu ao botequeiro que nos servisse a mais gelada da casa, àquela que ele tinha guardado pro vereador. Imediatamente então, emendei – Se é pra tomarmos cerveja de autoridade, traga logo a que o senhor guardou pro prefeito!!! O senhor agachou-se debaixo do balcão da espelunca e pegou uma garrafa do engradado e com o abridor em punho, foi logo ameaçando em sotaque carregado de maranhense do Azeitão: _ Querem que eu abra? _ Mas, esta está quente, o senhor pegou ali da caixa, retrucou meu amigo. _ Pois é, mas vocês pediram a que eu guardei pro vereador e pro prefeito e aqui no meu estabelecimento, se algum desses cabras entrarem porta adentro, é dessas que irão beber. Olha pro povoado e vê se eles merecem coisa melhor. De fato, a coisa por lá estava visivelmente precária. Bom, mas deixando os causos de lado e entrando na realidade... Na semana passada aconteceu um evento maravilhoso em nossa cidade, onde infelizmente eu, apesar de estar convidado, não pude comparecer, pelo simples motivo de ser um estradeiro, um viajante, um cigano, ou ainda como diria o meu amigo Karlos, apenas um “trucker”. Mas, mandei um representante ao evento, pois contratei os serviços de um profissional em colunismo social, devidamente credenciado e com acesso livre a todos estes eventos, somente para que nos coloque a par do que andam fazendo e pensando, os mais ricos e mais famosos e os que não são, mais adoram servi-los e servir de platéia para eles e depois, longe das vistas, acabam botando algum ossinho no bolso, pra levar pra casa e servir aos cães. Segundo meu informante e colunista Fala Mansa, a festa foi um sucesso. Marcaram presença por lá diversas autoridades, como o deputado gente deles, o prefeito e boa parte da nossa estimada câmara legislativa baconiana, além é claro do estafeta do deputado e do serviçal-mor do prefeito, esses dois últimos, presenças obrigatórias, devido ao encargo do ofício. Entre uma deliciosa costela que o tacho consumia sua graxa em fogo brando, uma cervejinha bem gelada e a missão oficial de traçar planos para legalizar um loteamento irregular, onde os que providenciaram a recepção aguardavam ansiosamente pela palavra amiga que colocaria fim a esta agonia. O fato é que o prefeito, devidamente acompanhado pelo empresário que loteou o local indevidamente, pediu paciência aos presentes e garantiu que a “coisa” vai andar, mas logicamente terão que desembolsar mais algum... O estranho nisso tudo, é que o atual prefeito não tem nada a ver com o loteamento irregular, pois não se deu na sua gestão e o empreendedor responsável pela irregularidade estava bem ali na frente de todos os presentes – Então, por que será que todos cobram providências do prefeito e não do loteador? Este assistia tudo, como se a coisa não fosse nem com ele. Outro fator curioso é o nosso legislativo se fazer presente em uma reunião onde estarão reunidos interesses contrários aos da representação popular, pois deveriam tomar a frente dos prejudicados e exigirem a devida reparação legal e imediata do loteador, e não ficar fazendo número, nem servindo de platéia para discursos inflamados de pústulas. O fato é que “fizeram” vistas grossas e o cara picou os lotes, vendeu caro (embolsando uma pequena fortuna em cima de uma área que nada valia em teoria), sem nenhuma infra-estrutura obrigatória e a área valorizou rapidamente, muito, devido a sua localização comercial privilegiada as margens da EC. Então, os proprietários estão contentes com a aquisição irregular, porém querem regularizá-la. Todo mundo ganhou dinheiro, porém o prefeito está com a bomba no colo. As formigas estavam ali tentando a regularização dos seus imóveis, pois são trabalhadores que compraram e pagaram por algo que deveria estar devidamente dentro da lei e não está. As cigarras estavam ali tentando encobrir as pistas deixadas pelo caminho, pois podem ser responsabilizadas (quem loteou e quem permitiu lotear irregularmente) – E o legislativo baconiano, o que fazia ali? Temo que a pergunta ficará sem respostas. Mas o ponto alto da festa foi o discurso comovente do deputado gente deles - já meio inebriado pelo combustível que abastecia o evento e com as palavras deslizantes devido a graxa da costela -, explicando como são acachapantes as peregrinações conjuntas que fazem na Capital Federal, ele e o prefeito, entrando de gabinete em gabinete (de bar em bar), estendendo o chapéu na busca pelos recursos que estão fluindo para nossa Bacon City. Depois se seguiu um discurso emocionante sobre a conduta memorável e irrefutável que o patriarca da família do prefeito sempre ostentou no seio da sociedade, sua liderança e seu espírito de cooperativismo. As palmas então fluíram, feito as lágrimas espontâneas que sempre brotam em nossos olhos quando assistimos a saga de Scarlet O’ Hara, ou a reunião dos irmãos separados pelo cientista maluco em Irmãos Gêmeos, aquela magnífica obra estreladas pelo Devito e Schwarzenegger. O Fala Mansa me relatou que contrataram até mestre de cerimônia, que puxava... as palmas e era seguido pelos demais, vai ser bom assim lá em Cardoso. Eu não estava lá, mas posso afirmar que o calvário deve mesmo ser grande, pois esses deputados conseguem falsificar tudo e para conseguirem algum lucro espúrio, certamente aqueles maltes que oferecem pelas mãos macias daquelas gostosas secretárias de gabinete, deve ser mesmo coisa horrível, produto de destilarias made in Ponte da Amizade, ainda por cima, quente né..., pois gelo nessa época do ano em Brasília, somente nos gabinetes dos deputados com voto no “conclave”, porque deputado do baixo-clero, nem pensar..., é cowboy mesmo. E aqueles petiscos que sempre servem em gabinete de deputado, têm cara de ser coisa vencida que iam jogar fora, ou restos do cardápio oferecido pelas companhias aéreas. Porém alguém, comovido com a penúria legislativa que atravessa a casa, deve ter doado para o repasto dos incômodos visitantes. Aposto a unha encravada do meu dedão do pé, que é coisa daquele sabonete do Nenê Constantino. Mas a pior e mais maçante parte desta súplica obrigatória em Brasília, são aqueles deputados e senadores boêmios que, passam as noites intermináveis no cabaré da Margô, ali na Quadra 910, conjunto F, Asa Norte, Brasília-DF. Um antro de ostentação, luxúria e perdição, onde tais legisladores insistem em arrastar seus convidados para demonstrarem ali seu poder e sua glória e, entre cálices e mais cálices do néctar de Baco, tudo devidamente pago com os recursos de alguma verba parlamentar disponibilizada para a atuação legislativa (porque não existe coisa pior do que puta cobrando cheque devolvido na porta da casa da gente). O imprevisível então, pode acontecer, até revelações importantes... Solidarizei-me com o suplício dos dois, apenas pelo relato choroso do Fala Mansa, ainda mais, quando o deputado gente deles, referiu-se como sendo um “caipira da terra”, atuando na Capital Federal do poder, em pról do nosso município. Aí foi o ápice do evento e segundo me reportou ainda o Fala Mansa, a platéia não se conteve e foi um chororô danado. Deputado..., o senhor tem muitas virtudes, mas esta sua modéstia ainda acabará por lhe prejudicar. O senhor é da terra sim, isso é inegável, mas caipira..., somos nós!!! Não posso perder a próxima de jeito nenhum, estas festas são bem melhores do que um show do Ari Toledo, ou mais emocionantes do que a temporada toda de Lost. Espero que o senhor prefeito, o deputado gente deles e os demais vereadores presentes no evento, nunca entrem no meu boteco para tomar uma gelada, pois possivelmente conhecerão a fúria de um botequeiro descontente e beberão daquela gelada no micro-ondas! Ps: Espero também, que o ex-quebrando o sigilo do caseiro Palocci não me processe por plagiar parcialmente o título do seu livro, mas este título não poderia ser outro. E além do mais, este texto é muito mais revelador do que o livro todo do Palocci, que certamente deve ter muito mais coisas interessantes a contar, do que aquelas que contou na edição seu livro de pós-ministério. Esperávamos algum segredo mais cabeludo, mais alcoviteiro das vísceras do poder federal.
Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 13h34
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