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BLOG DO ROBERTO LAMPARINA
 


ENTREVISTA FEITA COM O CÉLIO DO SURDO

 

          Aproveitando de uma proximidade que tenho com um membro importante da diretoria de um grêmio recreativo e esportivo de um dos bairros da zona norte da capital paulista, consegui extrair dele em entrevista, algumas informações importantes sobre a vivência nas grandes cidades, que servirão de parâmetros para nos exemplificar também, dos métodos utilizados em campanhas políticas hoje em dia. Como pessoas que não possuem atuação e, nem engajamento social e comunitário, conseguem se eleger para cargos eletivos com os votos de pessoas de uma determinada região e com interesses pré-estabelecidos.

          Na impossibilidade de revelar o seu verdadeiro nome, chamarei meu entrevistado pelo nome de Célio do surdo, aprisionado na informalidade, músico pretensioso, preto e pobre, mais um invisível morador de uma comunidade carente da cidade de São Paulo, criado na escuridão e nas fogueiras dos guetos paulistano, um típico subproduto dos bolsões de pobreza.

 

          Célio, pra começar, daria pra você resumir a sua vida em algumas poucas palavras?

 

          Você já disse na introdução quase tudo de importante. Músico, preto, pobre, abandonado pelo pai com mais cinco irmãos aos oito anos, sobrevivente das drogas, segundo grau incompleto e vivendo há mais de dez anos de serviços diversos, inclusive este de tomar conta e fazer a segurança de caminhões aqui nas imediações do Rodoshoping. A inclusão como membro ativo aqui da nossa associação comunitária do bairro, mudou a minha perspectiva de vida e acredito, que a partir desta mudança, ter contribuído para a transformação na vida de muitas pessoas que tiveram a mesma trajetória que eu tive.

 

          Célio, há quanto tempo você faz parte da diretoria desta associação comunitária e qual a finalidade dela junto à comunidade?

 

          Bem, já estou na diretoria há três biênios, mas antes disso, passei por diversos cargos dentro da associação, vivendo uma experiência associativa de mais de quinze anos e que começou com o carnaval. Uma pequena escola de batuque que mobilizava a comunidade em torno dos desfiles carnavalescos. Em seguida veio às atividades esportivas com o time sênior de futebol que se apresentava disputando torneios amadores pela cidade e assim foi se expandindo para estes dois lados, o carnavalesco e o esportivo, assim mesmo, como um lazer de um bairro de operários e que tem nestas atividades, a sua forma de lazer e de expressão.

 

          Qual a atuação da associação junto aos membros da comunidade e até que ponto vocês conseguem atingir os objetivos traçados com tamanha precariedade de recursos e possibilidades?

 

         

          Hoje a integração da associação junto aos nossos moradores é total. Tentamos estar presente ativamente na vivência das pessoas da comunidade, seus problemas, suas dificuldades, suas restrições, tudo acaba virando pauta nas nossas reuniões e procuramos, de alguma forma, encontrar maneiras de auxiliar naquilo que for possível. Ex: um membro estava encontrando dificuldades para conseguir tocar um pequeno comércio informal que mantém o seu sustento e dos seus familiares em uma rua movimentada aqui do nosso bairro e, volta e meia os fiscais da prefeitura o estava incomodando, querendo a sua remoção e do seu barraco (pequeno comércio de salgados e refrigerantes) do local. Acionamos então os nossos contatos políticos na Câmara Municipal de São Paulo e o fiscal parou de incomodar e perseguir o pequeno comerciante informal. Isto gera uma confiança total por parte dos moradores, que sempre nos depositam confiança e nos procuram para a solução dos seus problemas, até mesmo os pessoais de foro íntimo. Eles acreditam que podemos resolver o problema e, nós tentamos e fazemos tudo que está ao nosso alcance para tal.

 

 

          Quais os recursos financeiros que vocês possuem e como fazem a capitação destes recursos?

 

          Conseguimos angariar recursos com as promoções dentro da comunidade, às festas na quadra da escola e as atrações que conseguimos trazer e se apresentar para a nossa gente. Isso tudo com outras pequenas receitas auferidas aqui e ali, como doações de comerciantes e de empresas da região, além de gente que “pode” mais e se solidariza com o trabalho que desenvolvemos. É assim que vamos conseguindo manter a dignidade aqui na nossa comunidade. É muito problema e muita falta de recursos para resolvê-los, o que nos coloca em uma condição de priorizar as necessidades absolutamente mais básicas possíveis. Problemas de saúde, como exames e remédios que não estão disponíveis no sistema de saúde pública, é uma prioridade absoluta, assim como a manutenção de idosos e mulheres que não possuem convivência com parceiros e tem que arcar com as despesas da família, a associação acaba por ajudar com a distribuição de cestas básicas e tudo o que for possível, dentro das nossas precárias possibilidades.

 

          Então, a associação é uma parceira de todas as horas, presente nos bons momentos e nos momentos difíceis também?

 

          Exato, estamos presentes nas festas e no choro dos velórios em que enterramos nossos mortos, com a devida dignidade que todo ser humano deveria ter. Acompanhamos todo o processo de recuperação das famílias traumatizadas por brigas e separações conjugais, problemas com tutela de filhos, questões muitas, que vão desde o reconhecimento de paternidade, até a assistência total e acompanhamento jurídico para tratar da burocracia do pós-morte, como recebimento do auxílio funeral, legalização de pensões junto ao INSS, entre outros assuntos. Estamos tentando desenvolver um trabalho de esclarecimento dos nossos jovens sobre drogas, sobre aids e sobre métodos contraceptivos, através de palestrantes e cursos desenvolvidos aqui na sede da associação, mas é uma estrada de difícil acesso e estamos ainda na busca pelo melhor caminho.  Na verdade o melhor caminho passa pela ocupação do jovem, na sua evolução e desenvolvimento da sua capacidade produtiva e das suas potencialidades, como aprendizado de uma profissão, mas aí já entra em um terreno que não temos como atuar ativamente, pois são questões que deveriam estar nas prioridades das políticas públicas.

          Outra missão difícil é você conseguir embutir conceitos de cidadania, dignidade, honestidade, entre outros valores positivos, tendo o jovem inexperiente, o exemplo negativo do traficante que mora ao lado da sua casa, que anda de moto, tênis bacana e roupa de grife, enquanto ele, embalado por todos aqueles conceitos positivos, anda de pé, com tênis surrado da China e comprado numa pechincha no brechó, tendo ainda adquirido o resto do vestuário na banca da cigana aqui da vila.

 

          Qual a ajuda que vocês tem recebido do poder público para continuar com esta missão social?

 

          Do poder formal e na forma da lei..., nenhuma, pois os políticos só aparecem na comunidade em época de eleição e isso deve ser em todos os lugares, inclusive na sua cidade, que você já me descreveu como sendo de porte médio. Mas, quando eles aparecem por aqui, tentamos tirar o máximo de proveito da visita, pois não sabemos se, e quando voltarão. Temos nos comprometido com políticos que nos ajudam, que conseguem coisas para a comunidade e que sabem exatamente o valor que estipulamos pelos nossos votos, pois falar em política como uma forma espontânea de representatividade democrática, é a maior mentira que um político já inventou, pois o sistema político que presenciamos hoje no Brasil, se alimenta das pequenas necessidades de pessoas carentes de tudo (nosso caso), onde podem comprar, bem baratinho, a votação básica necessária para uma vitória em urna. Os interesses dos poderosos são saciados com a representatividade política maciça bancada com o dinheiro dos interessados e a nossa subsistência humilde, também precisa valer alguma coisa, já que só agregamos este valor em tempos de eleição. Temos conseguido muito material esportivo, muitas cestas básicas, alguns remédios, bem como algum dinheiro para fazer carnaval e conseguimos eleger todos os políticos com quem fizemos negócio, inclusive temos hoje um vereador representando os nossos interesses na Câmara Municipal. Este nosso vereador é membro da nossa comunidade e possui compromissos com nossa gente, porém os outros, em outros níveis, apenas pagaram pelo nosso contingente eleitoral e terminou aí o nosso compromisso, não nos representa e nem aos nossos interesses, é puro negócio, negócio este que mantém as nossas ações imprescindíveis para o bom andamento da nossa comunidade.

CONTINUA...



Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 03h29
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...CONTINUAÇÃO

          Então, você definiria as ligações políticas existentes hoje, como sendo um negócio bom para ambos os lados? Tenho um companheiro lá em Votuporanga que possui um termo mais apropriado - ele diz que temos que ter os cascos vazios para que possamos trocar pelos cheios.

 

          Esta é a mais pura verdade, pois eles querem algo que nós temos e nós queremos algo que eles podem facilmente conseguir. Eleição, democracia, representatividade, são meras palavras sem nenhum sentido na boca de políticos que aparecem por aqui claramente no interesse comercial dos nossos votos e, são muitos, não pense você que seja um ou outro não. Aparece gente querendo comprar o voto da comunidade toda e que eu nunca vi, nem mais gordo e nem mais magro. Não é só aquele político que está estampado todo dia na mídia não, é o sujeito que está montado em um caixa para exercer a função pública a serviço de terceiros, o sujeito que quer ingressar na vida pública, mas não tem o reconhecimento público necessário e por aí vai...

 

          E como funciona o trabalho de gerenciar e canalizar estes votos da comunidade para o comprador – Quem garante que na urna, cumprirão o trato?

 

          Esta é uma questão simples, pois presenciam diariamente os nossos esforços para melhorar a vida deles, sabem que sem estes recursos angariados com a venda dos votos, seria impossível desenvolver os trabalhos em todas as frentes em que atuamos. Nós temos um colégio eleitoral que comparece e sempre nos dão o respaldo necessário para a concretização do negócio realizado, com uma margem bem próxima do número total de votos vendidos aos nossos clientes. Não se espante com o termo, mas é exatamente este, clientes... Eles ficam satisfeitos com o resultado da apuração e nós seguimos com nossas vidinhas medíocres, contornando as dificuldades que insistem em aparecer sem convite prévio. É o Zé da Vila que caiu, quebrou a perna e não pode nem fazer os biscates que fazia, tendo a associação de arcar com as responsabilidades e seguir provendo o pão para o Zé e família. A dona Maria Auxiliadora que não está mais conseguindo lavar roupas pra fora, porque está tendo que cuidar dos seus três netos, não conseguindo mais trabalhar e ganhar o seu sustento, a Valdíria que está “nóia” de novo no crack e seus filhos estão passando necessidades extremas jogados pra todo lado, e por aí vai...

 

          E como é feita a prestação de contas, esta contabilidade tão informal, perante os membros da comunidade?

 

          Rs, rs, rs... Nós pobres estamos tão acostumados com a informalidade em nossas vidas que é algo mecânico, natural. Um caderno, uma caneta e algumas anotações com os valores das transações e a contabilidade normal, baseada nos créditos e débitos do período. O que vai sobrando, vamos tentando aplicar nas nossas necessidades e dentro da nossa modesta visão de utilidade futura. Ex: adquirimos recentemente uma perua que está nos ajudando muito nos deslocamentos e nos trabalhos comunitários. Temos muitas outras necessidades, porém a grana está curta e eleição, só no ano que vem. Além do que, nós pobres, não temos muito no que amparar os nossos possíveis desvios de conduta, afinal todos sabem quem somos e como ganhamos a vida. Se você aparece comprando e ostentando algo que o seu padrão de vida não lhe permitiria, sempre alguém notará e saberá que ali tem...

 

          Pra encerrar, o que você está achando do governo do presidente Lula e, certamente já deve ter tido algum contato com o nosso atual governador José Serra, então, como vê a possibilidade da sua candidatura e as pesquisas que mostram a sua arrancada nas intenções de voto?

 

          Falar do Lula é algo que seria suspeito, pois minha mãe me contou que meu pai trabalhou com Lula quando ele era metalúrgico em São Bernardo e acompanhei a sua trajetória política até os dias atuais, então o descreveria como sendo o brasileiro do momento, o homem que todos gostariam de estar perto e no convívio, o cara que deu certo e certamente entrou para a história política deste país, por representar o povo no poder. Conseguiu algumas vitórias e outras derrotas, porém ninguém nunca poderá acusá-lo de não ter tentado. Quando todos tentavam de todas as formas desacreditá-lo e lhe atribuir diminutivos, ele seguia persistindo na missão de olhar somente para frente e hoje chegou lá, conseguiu atingir números, que como ele mesmo sempre diz, “nunca antes na história desse país”, um presidente conseguiu. Pra mim, Lula é mesmo “o cara” e sabe desfrutar desta condição confortável.

          Já o Serra é pessoa com quem estive reunido algumas vezes, sempre representando a associação. Sempre frio e perseguidor implacável das suas metas, principalmente na campanha para prefeito de SP, que foi a sua ressurreição política, depois da derrota para Lula em 2002. Não negocia nada diretamente e a palavra não, não existe no seu dicionário. Pra mim é surpreendente os números destas pesquisas que estão divulgando, apesar de a sua possível rival, a Dilma, ainda não ser conhecida do grande público e o Serra já ter perambulado pelo Brasil na busca dos votos para presidente. Acho que o Serra terá o fantasma do Lula como adversário em 2010 e será um páreo duro, pois o que tiver as bênçãos do Lula, terá o grande apoio de uma massa que teve a vida transformada pelas ações concretas do governo Lula.

          Você não me perguntou, mas como estou louco pra dizer..., aí vai. O Kassab é um canalha, pois esteve aqui na nossa comunidade quando assumiu a prefeitura na vaga do Serra, firmou algumas parcerias com a comunidade e nunca cumpriu nenhuma. Esse, nem pagando leva mais o nosso tesouro.

         

          A saideira - Qual o partido político mais presente, atuante e o da sua preferência?

 

          Essa é fácil, aquele que facilita as negociações e nos paga o preço que precisamos para continuar ajudando a nossa gente na sobrevivência digna nesta selva de concreto chamada metrópole, aonde a justiça não chega pra pobre, a polícia só vem pra invadir, prender, matar e discriminar, nunca estando presente para orientar ou ensinar e, os políticos que deveriam nos representar democraticamente, na verdade, só querem possuir temporariamente os nossos votos. Eles se dividem em grupos de interesses e nenhum deles se interessam por pessoas pobres, desajustadas socialmente, doentes do corpo e da alma. Esta é a nossa missão.

 

          Parabéns Célio, pelo trabalho desenvolvido e pela oportunidade dada, para que eu possa mostrar para a minha Votuporanga, uma pequena comunidade lá do interior de São Paulo, que apesar de tudo o que está acontecendo, com o endurecimento das pessoas diante de tantas necessidades, os fins sempre justificam os meios e, se foram estes os meios que vocês vislumbraram para tornar a vida das pessoas necessitadas e humildes, mais digna, há que se justificar, sempre enaltecendo as vitórias e procurando minimizar as derrotas.

          Afinal, se os direitos constitucionais se revelam uma farsa ajuizada, o Estado possui todas as ferramentas em condições de fiscalizar e normalizar a conduta dos políticos e não o faz, abrindo brechas para os maus gestores e manipuladores do eleitorado diante das suas necessidades tão básicas, é perfeitamente justo e possível que tentemos atingir um objetivo nobre, mesmo vindo desta imunda relação de dependência política.

 

          Obrigado pela oportunidade de falar para fora das nossas fronteiras, aquilo que os daqui, estão cansados de saber. Espero um dia ter a oportunidade de conhecer a sua Votuporanga e encontrar uma realidade diferente daquilo que me acostumei a ver por aqui.*

 

 

 

 

         



Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 03h22
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DE GRÃO EM GRÃO, SEGUEM ENGANANDO O POVÃO

Gostaria de agradecer ao Poeta Gibim, por ter publicado este artigo na edição do dia 27/10 na página do seu JORNAL DO POETA GIBIM. Sendo este Jornal bastante lido pela nossa comunidade, acredito estar prestando um serviço de utilidade pública, abordando um tema que nos afeta diretamente e que seria de fácil solução, somente apostando no bom senso dos donos de supermercados locais.

 

          Eu vivo tentando encontrar um tempo para pegar o gerente do Porecatu de jeito, mas ele tem conseguido escapar da minha inquisição. Eu digo Porecatu, pois é o supermercado onde faço regularmente as minhas despesas essenciais do mês, mas o que eu gostaria mesmo, era de estender esta inquisição calórica para todos os supermercados da cidade.

          Acontece que sou cliente do Porecatu da Avenida Brasil, desde que se iniciou ali sua atividade e como sempre faço, não utilizo para pagamento das minhas despesas, qualquer outra forma, senão dinheiro. Aí então você paga lá suas despesas no valor de R$ 321,44 e a pobre operadora do caixa têm que se desdobrar em dez para fazer o troco milimetricamente dentro da quantia especificada. Leva quatro ou cinco minutos para o ajudante-empacotador correr no balcão do controlador de fluxo de troco e, trocar alguns tostões em moedas e miúdos, depois levar para a operadora de caixa novamente que, passará o seu troco em suas mãos, exatamente o restante correspondente daquela quantia descrita pelo cupom fiscal. Ao final, quando o empacotador volta ao seu posto, você próprio já acondicionou as suas compras naquelas desprezíveis sacolinhas plásticas, tão úteis e tão inimigas da humanidade.

          Num segundo exemplo, chega o sujeito em seguida, passa todas as suas mercadorias e para saldar o débito, emite aquele checão pré que, pode até ser estendido o pagamento para sessenta dias, dependendo da necessidade comercial e do calendário festivo. Não paga um único centavo sequer pelos juros e consegue efetuar esta manobra em menor tempo do que aquele que pagou as suas despesas com dinheiro, aquele papelzinho comercialmente seguro e ali na bucha, onde é só dar uma espiadinha na luz para verificar a autenticidade do papel-moeda e pronto, o valor troca imediatamente de mãos.

          Aí você se pergunta – Mas, não tem uma regra básica em economia que, adverte que nas relações comerciais, todo dinheiro possui um custo diário e aquele cheque pré, só se tornará dinheiro depois de cumprido o prazo entre este relacionamento de confiança estabelecido entre comerciante e cliente? Então, se todo dinheiro tem um custo e que este custo aparecerá ao final do prazo estabelecido nesta relação de confiança – Por que será que quem compra e paga com dinheiro e a vista, não tem o devido desconto em suas compras e ainda é punido pela demora no troco? Afinal não é só o custo provável até que o cheque seja compensado, como também o custo que esta relação acordada com emissão de cheque poderá causar, no caso de uma devolução, ou até de uma possível execução judicial para recebimento do mesmo.

          Então, os 1, 2 ou 3 por cento variáveis nas taxas de juros praticados no comércio, sobre os desprotegidos tomadores de crédito involuntários, podem se transformar num pesadelo e num prejuízo incalculável, no caso de devolução ou inadimplência deste cheque. Por isso, e pela solidez na operação, acredito ser correto pensar em um desconto pronto na ordem de 5 por cento para aqueles que efetuam o pagamento  em dinheiro, premiando-os com a sinalização de satisfação por esta transação absolutamente segura e sem riscos futuros.

          No entanto, isto não acontece, pois o dinheiro daqueles que pagam por suas compras em espécie é usado para financiar o prazo daqueles que emitem o checão pré, esses sim, são agraciados com o custo zero do financiamento do prazo (zero é maneira de dizer, pois este custo já está devidamente embutido no preço das mercadorias e todos nós pagamos um pouco, logicamente sem saber).

          Além do mais, a operadora de caixa não possui sequer autonomia para dar qualquer desconto, nem mesmo o mínimo para facilitar o troco, sem que isto lhe renda descontos no fechamento do seu período. Bastava um talonário de Debite-se, discriminado os centavos descontados na operação e estaria tudo facilitado para ambos os lados. Mas não, eles recebem até os míseros centavos do pobre cliente que é punido por pagar suas compras em dinheiro.

          Os disparates destas pequenas armadilhas resultam em diferenças gritantes nos preços finais efetuados pelos nossos supermercados locais, se comparados a outros que tenho verificado pelas minhas andanças por todo o Brasil, onde as vendas são efetuadas somente a vista, na solidez e segurança garantida dos cartões de créditos, ou qualquer outra das modalidades garantidas pelos agentes financeiros, não existindo aquela insólita viagem do cheque pré (aquele que o gerentão do banco só garante se o sobrenome oferecer robustez), bancada pelo consumidor que honra suas compras a vista e em dinheiro.

          Tomando como exemplo o meu consumo, gasto algo próximo de R$ 400,00 por mês no Porecatu. Nunca lhes passei um único cheque sequer e se estivessem me beneficiando com o meu desconto possível, economizaria R$ 20,00 ao mês, R$ 240,00 ao ano, número bastante expressivo, se multiplicado pelo número de clientes que efetuam suas compras usando esta medieval e mais eficaz modalidade de pagamento.

          Aí então se explica os sorteios de veículos, brindes e etc...

          É por isto que precisamos abrir nossas portas para a inclusão dos grandes varejistas no comércio local, pois carregam consigo infinitas possibilidades comerciais, sem o apego arcaico de velhas tradições comerciais regionais. Além do que, despertariam uma concorrência contínua, certamente culminando com a diminuição dos preços finais ao consumidor, pois dinheiro bom é dinheiro no bolso do consumidor e não financiando as promoções de comerciantes que iludem os seus clientes com este marketing enganoso das premiações, onde somente existe um único ganhador e o resto, todos somos perdedores potenciais.

          Mas, não permitam que estes comentários cheguem aos ouvidos dos donos da cidade, pois eles recebem benefícios para que esta modalidade comercial permaneça sob esta estrutura do século passado, além é claro das generosas doações para as entidades assistenciais que grupos políticos coordenam sob cabresto curto e sempre pensando nos dividendos eleitorais futuros.

          Além do mais, eles acham bacana torturar as operadoras de caixa com aquela pergunta – Você não sabe quem sou eu? Naquele momento em que as pobres moças pedem o número do telefone para anotar no verso do cheque. Eles acreditam que todo mundo tem obrigação de saber quem são, mais precisamente, o cargo que ocupam, ou ainda, o que ocuparam um dia.

          Nas grandes redes de varejo não tem esta canja, não tem xiximinhanega, você paga, oferece as garantias necessárias e ninguém quer saber quem é você, de onde veio, o que acha do movimento EMO, se esteve participando do desfile no dia do orgulho gay e etc...

          Sozinho, não posso mudar muita coisa, mas se todos os clientes exigissem este desconto devido, certamente teriam que mudar esta condição caipira do tapinha nas costas com a mão direita, enquanto a esquerda, nos revela uma suave passadinha por entre as nádegas.

 

 



Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 10h05
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FUNCK DO MORDE E SOPRA

 

          No boletim informativo do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Votuporanga, editado no dia 17/10/2009, com respeito às manobras efetuadas pela administração municipal no sentido de levar na “lábia” os servidores e as suas justas reivindicações quanto ao valor do crédito em cartão magnético referente a cesta básica, é claríssima a postura da atual administração, onde se recusou a negociar com o sindicato, alegando austeridade econômica nas ações administrativas. Porém isso, não o impediu de no momento seguinte, criar 18 cargos de divisão e 19 de chefia de setor, ficando claro assim, que desde a sua posse, está fabricando e mobilizando todo o seu “estafe pensante”, no sentido de produzir cargos que possam atender ao contentamento da corja, digo os aliados políticos.

          Quando assumiu em Janeiro, o prefeito estava ciente das dificuldades gerenciais que enfrentaria, principalmente pela possível queda de arrecadação que se vislumbrava em decorrência da crise mundial. Então, o correto seria ter pisado no freio e enxugado a máquina, e não tê-la agigantado ainda mais. Cadê o tal choque de gestão que tanto pregam os atucanados da boa índole e da excelência em administração? Certamente foi sufocado pelas necessidades políticas.

          Por mais que tente assentar todo este pessoal na máquina, isso ainda não foi possível e tem sempre alguém esbravejando pelos corredores pela promessa eleitoral ainda não cumprida. Mesmo esparramando todos os aliados em tudo quanto é lugar possível, inclusive no setor privado amigo, como UNIMED, gráfica de editais e coisa e tal, já existe uma extensa lista de bajuladores esperando para a segunda chamada no segundo biênio. Eles estão se escalpelando para ver quem sairá e quem ficará nos solavancos e sacodes da máquina.

          Mas, isso não é nenhuma novidade, são só os espinhos de uma aliança avassaladora que não poderia perder a eleição de forma alguma, devido ao sórdido comprometimento da gestão passada. Explicar o fenômeno é fácil, é aquele dito popular que afirma que onde um morde, depois haverá sempre alguém encarregado de soprar. O ex mordeu tudo o que foi possível e agora o atual, vai passar os seus quatro anos soprando.

          As estórias se repetem. Lembram do Quércia, ele mordeu tudo. Depois veio o Fleury e ficou soprando por quatro anos. Lembram do Maluf, aconteceu quase o mesmo. Depois das dentadas do mandrião, veio o Pitta e..., quis ditar outro rítimo no funck do morde-sopra, querendo morder também, mas não era a vez de morder, ele estava ali pra soprar e então, se fu...

          Aqui, no momento atual, também é tempo de soprar. Caso o prefeito decida não seguir as regras, certamente terá o mesmo fim do Pitta.

          Mas, falando em ambientes apertados e insalubres, quando jovem, tive a honra de me debutar no selvagem mercado de trabalho, no pioneiro Escritório Contábil Líder, de propriedade do Senhor Miguel Gossn. Éramos em mais de vinte pessoas amontoadas em meio aquelas velhas máquinas de descrever Olivetti e ainda algumas daquelas máquinas calculadoras que tinha que apertar as teclas e puxar aquele ferrolho lateral.

          Naquele tempo, já havia uma postura ecológica por parte do Seu Miguel, que nos mandava enrolar as fitas das máquinas calculadoras já utilizadas, pelo outro lado, para que pudéssemos usá-las novamente. Não sei se era mesmo postura ecológica, ou era o fato de ele ser turco...

          Mas, o ambiente era apertado, meio que igual a PM hoje. Imaginem uma acomodação pequena, com velhas máquinas, velhas escrivaninhas e velhos arquivos jogando papel fora para tudo quanto é lado e, vinte e tantas pessoas espremidas naquela bagunça. Quando tava tudo bem, beleza, mas, mais de vinte pessoas num ambiente desses, é impossível todo dia estar bem. Sempre tinha aquele que estava desarranjado. Criamos então, uma lei oposta a da Princesa Isabel, a lei do “ventre preso”. Era a única forma de organizar e minimizar os efeitos colaterais daquela zona. Quem liberasse o ventre inadvertidamente, ficaria obrigado a fazer a faxina no banheiro à tarde.

          Bons tempos aqueles, velhos amigos que, mesmo apesar de não vê-los nunca, sempre estarão guardados em minha memória. Às vezes passo por lá e sinto até saudades, principalmente porque, muitos daqueles da minha época, ainda estão trabalhando lá, olha que já faz vinte e sete anos que eu comecei por ali. Ao Flávio Damião Curti, Paulo César da Silva, Maria Lúcia Sfoza, Alexandre Sereno Colato e se esqueci de alguém da velha guarda, que me perdoe. Meus sinceros parabéns pelo feito, pois passar tantos anos assim num único emprego, é realmente algo digno de muita comemoração e tenho certeza de que foi uma árdua jornada, pois nos quatro anos que estive ali, certamente me proporcionaram muitos dos meus cabelos brancos de hoje.

          Pela minha experiência vivida, recomendo então ao prefeito atual, que a única maneira de se organizar uma bagunça fora de controle, é prender o ventre. Identifica-se então o local onde está nítido o vazamento da biodigestão e lacra-se o reator. Deixe que as bactérias se digiram até o fim. Caso contrário, as bactérias fortificadas que ali habitam, estando alimentadas a gosto, produzirão tanto gás que o reator explodirá.

          Ainda um último conselho, preste muita atenção nos seus aliados mais próximos, e não se esforce para satisfazer todos os seus desejos, pois ainda assim, terá sempre alguém desarranjado. Serão estes que irão fortificar as bactérias para que possam explodir o reator.

          E se nada disso funcionar, lembre-se da sua origem turca e ordene-os a enrolar as fitas de máquina do outro lado. A única coisa que é imprescindível sua unilateralidade, é o papel higiênico, esse não dá pra ficar querendo fazer média em cima dele, senão acaba-se com as mãos sujas.

          Aos infratores, que se resignem as suas insignificâncias e os coloquem de castigo à faxinar os banheiros.

         

          



Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 17h05
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