MOTORISTA DE FOLGA
Obrigado pelas circunstâncias, domingo, fui arrastado para viver um dia de capitalista em exercício. É que como minha esposa teve que ir pra Rio Preto para prestar o concurso de “carteiro do judiciário” - o entregador de cartas mais caro do Brasil -, fui obrigado a fazer a função de chofer particular e levá-la até o local da prova. Carro 1000 véio, pneus meia-vida, documentos atrasados e sem ar condicionado, ainda por cima, aquele barulho de fanfarra de lata de lixo que os porta-malas de uno, costumeiramente fazem. Eu estou tomando uma algerisa (desculpem minha imperdoável falha, mas acabei de saber por um boió..., digo um catedrático leitor que é ogerisa. Apaga tudo pois o catedrático se revelou mesmo um boióla e na verdade é ojeriza) de pobre, porque pobre é mesmo uma raça abusante. É Só falar que vai pra algum lugar e já fica todo mundo logo pronto e a postos. Filho, sobrinho... Sempre alguém sugere – Vamos levar também a cachorra, coitadinha...! A “pobre” vai ficar o dia todo aqui em casa sozinha? Entra todo mundo dentro do automóvel (se é que dá pra chamar esses populares de automóveis) e depois de alguns kilômetros, alguém já começa com a palhaçada de soltar aqueles fuduns urubulentos dentro do veículo. É um atrás do outro, ninguém sabe de onde vem, mas percebe-se, pelo cheiro, que o corpo já foi e o que resta, é encomendar a alma da vítima. Também, não podem ver um posto ou uma barraquinha na beira da estrada, que já estão com fome. Que falta faz um veículo equipado com ar condicionado, daqueles que chega levantar os cabelos para trás! Mas, pobre, mesmo que o carro seja equipado com o ar, ele não pode ligar, que é pra não aumentar o consumo de combustível do veículo. Uma das grandes inovações da indústria automobilística nos últimos tempos foi acabar com aquele cheiro de gasolina que os carros tinham em seu interior, porém pobre sempre dá um jeitinho de estragar tudo. O pobre coloca no tanque só o extremamente necessário para o percurso, enchendo aquele terrível tubo de cotubão 2 lts, de gasolina e deixando no porta-malas, como reserva. Não atarraxa a tampa direito e alguns pingos de gasolina derramados no carpete, é o suficiente para levar todos a náuseas intermináveis. Pela pura graça de DEUS, superando todas as dificuldades impostas pela precariedade do veículo e a péssima conservação asfáltica em que se encontra a Euclides da Cunha (coisa que membros estimados da nossa sociedade, já estão dando um jeitinho com o nosso governador Zé feio por fora e por dentro pedágio), conseguimos chegar em Rio Preto com duas horas de antecedência da prova – O que fazer então nessas duas horas? Alguém logo sugere uma passadinha no shopping, aquele lugarzinho fdp, onde tudo é comprado em Serra Negra, na 25 de Março, na Rua Oriente e adjacências (eu trabalhei como motorista de ônibus e levei muitos comerciantes de grife aí nesses lugares, inclusive daqui, mas podem ficar tranqüilos que eu não citarei os nomes). Estendido numa vitrine de shopping, passa a custar cinco vezes mais do que vale, somente para que os comerciantes possam pagar o aluguel das salas aos capitalistas espertalhões que o construíram e o administram. Mas, pobre vai lá e compra, nem sentindo o cheiro dos costureiros bolivianos (imigrantes clandestinos) que vivem a se espremerem nos porões de velhas confecções do Brás, em condições subumanas e trabalhando quinze horas por dia atrás de uma máquina de costura, para dar produção aos turcões do comércio popular mais disputado da América Latina. Perambulando aqui e ali - pelo hiper que espanca os novos negros da geração Lula, só porque passeiam em seus carros próprios, com aquela pose do tradicional cotovelo de fora -, comprando aquelas coisinhas encalhadas que estão nas bancas da promoção – Nossa que achado, esta toalha custa o olho da cara lá na Bacon, aqui é só R$ 4,99. Pega logo umas cinco, pra aproveitá a oferta – Mas, não tem rosa? Como se pobre se amparasse nestes conceitos pequeno-burguês – Pobre é tudo daltônico, pega logo qualquer cor!!! Uma passadinha defronte a praça de alimentação... e algum lombriguento logo diz que está com fome. Nem parece que acabaram de comer todo o estoque de croquete e esfirra que havia na vitrine do Zeca Gão, aquela barraquinha que fica debaixo das seringueiras de Bálsamo. Depois de um breve footing pela praça, alguém diz que quer a “roasted potato”. Certamente só sabe que é batata pela fotografia, porque pobre só lida bem com o inglês, quando é pra repassar aqueles fuck you de filme americano – Mas, batata a gente come em casa??? Não precisa pagar 10 contos por uma batata enlameada de coisas, que provavelmente, aumentará ainda mais o piriri na volta. Como bom adepto do regime democrático, vencido pela maioria, todo mundo come aquela batata nojenta, que na minha humilde visão socialista, deveria ser proibida a sua comercialização, haja visto, que não existe nada que se coloque dentro de uma batata que a faça valer 10 paus, ou mais, dependendo da porcaria que se mete dentro dela. O primeiro que sugeriu a batata é o que não consegue digerir a dele. Também pudera, onde já se viu pedir uma batata com estrogonofe de frango e carregada de catupiry. Isso é pior que um coquetel molotofe – Pai..., tô com dor de barriga, onde fica o banheiro? – Agora agüenta, não mandei comer esta porcaria. Eu bem que sugeri que nós fôssemos ao Martinelli e comêssemos um pf-motorista, daqueles que vem até ovo em cima do bife. Mas não..., vocês quiseram a roasted potato, esta batata recheada de ouro, este símbolo capitalista que alimenta a inutilidade consumista da pobreza desvairada. Come então esta dádiva do Adam Smith e vamos logo embora desta Sodoma! Fora daquele profano local, a pessoa sente-se até aliviada, também o bolso já está nas últimas. Conta-se os tostões que ainda restam. Talvez ainda até dê para um sorvetinho daqueles italianos, mas é melhor não dar o alarme, senão alguém é capaz de topar. Quatro horas de espera pela despreparada candidata que está tentando uma vaga de entregadora de correspondência judiciária, e a tortura chega ao fim. Novamente todos dentro do popular veículo, a se revezarem na emissão daqueles insuportáveis gases naturais. Com tanto pobre no mundo, não sei porque ainda vivemos este dilema interminável do temor do esgotamento dos recursos energéticos. Parece que o passeio chega ao fim, mas com pobre, a coisa nunca é simples assim – Pai, dá uma passadinha no aeroporto pra gente vê uns aviões? Ainda bem que não encontrei ninguém conhecido nesta aventura. O que eu diria aos camaradas na reunião mensal da SSCSP - Sociedade Secreta dos Cavaleiros de São Petersburgo!!!
Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 18h01
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