SELVAGEM (ENS)
Tenho me dedicado ao longo dos muitos anos de escrevinhador, há exaltar as belezas e as virtudes da bela Votuporanga em sua data natalícia. Este ano, no entanto, deixarei esta rotina de lado, para narrar alguns acontecimentos da vivência cotidiana em nossa paralela Bacon City, um universo paralelo obrigatório, onde “sobrevivem” aqueles que não tiveram a sorte de nascer membro da meia dúzia ascendente. Os acontecimentos a seguir, narram a rotina baconiana entre o período das 06:00 e 11:00 horas do dia 07/08/2009, véspera do aniversário natalício da primogênita e perfeita Votuporanga. Sexta-feira, dia 07/08/2009 – Se encontravam nos portões da Promoção Social baconiana desde as 06:00 da manhã, uma multidão de cidadãos baconianos - algo em torno de oitenta pessoas -, que aguardavam pacientemente o início da atividade funcional no órgão para pegarem fraldas, passagens, agendamento de ambulâncias, cestas-básicas e outras subvenções disponibilizadas pela administração pública municipal. Os funcionários do órgão municipal chegaram as 07:30 e até 08:40 permaneceram inertes ignorando aquela imensa fila de espera, um descaso que foi interrompido quando um garoto - provavelmente do DAFIC -, vai até o portão dar uma olhadinha na fila. Os cidadãos baconianos, já exaustos com a espera e indignados com o descaso recebido, aplicaram-no uma sonora vaia, porém sem tumulto ou desordem aparente, apenas o repúdio sonoro de quem está se sentindo ignorado e aos seus direitos de cidadão. O menino então se recolheu novamente para o interior da fortaleza assistencial e alguns minutos depois, uma viatura policial encostou no portão e dela desembarcaram dois paladinos da justiça, cujos nomes de guerra, ostentavam com altivez no lado direito do peito, os substantivos de Ângelo e Ferrari. Ficaram por ali montando guarda no portão como se ali estivessem quadrilheiros ou bandidos tentando viabilizar um audacioso plano de assalto ou saque naquela fortaleza assistencialista. Em nenhum momento houve uma ameaça real de tumulto, nada que justificasse a presença policial - nada que algum funcionário bem preparado e acostumado com o trato popular, não desse jeito -, mas mesmo assim foram acionados, provavelmente com a alegação de uma pseudo-ameaça ao patrimônio público, tendo sido verificada por algum burocrata do órgão. Com a justificativa bradada, outra viatura com outros dois valorosos policiais, para o local dos acontecimentos foi direcionada. Com a chegada de mais reforço policial, os mesmos foram orientados pela administração do órgão municipal a dispensarem os necessitados sem assistência, entregando-lhes uma senha para que retornassem na próxima quarta-feira, obrigatoriamente com aquele papelzinho regulador. Desta forma, os policiais Ângelo e Ferrari, bons cumpridores de ordens que são, não tiveram nenhuma consideração com as pessoas idosas - mulheres e necessitados outros que ali se amontoavam na espera de que fossem atendidos nas suas necessidades primárias desde as 06:00 hs. -, e cumpriram a ordem determinada.. Não estou aqui discutindo as atribuições da PM, que naquele momento cumpria seu dever hipotético, defendendo o patrimônio público, apesar de que poderiam tê-lo feito com mais trato e preparo, objetivando em primeiro lugar o respeito aos cidadãos em questão, pois paredes podem sofrer ranhuras e danos materiais reparáveis facilmente, porém as pessoas sofrem danos morais irreparáveis, pois são feridas na sua essência enquanto seres humanos, tão livres na demagoga síntese da primazia cidadã e tão aprisionadas nas suas primárias necessidades básicas não atendidas a contento. Gostaria então de me ater ao despreparo dos funcionários públicos municipais que ali se encontravam ignorando os desamparados, negando-lhes sequer uma orientação, sendo relegados a uma desumana espera interminável e absolutamente desnecessária. Algumas perguntas se fazem então obrigatórias: 1- Cadê o responsável pelo órgão de Promoção Social e na sua falta, a seqüência hierárquica que deveria ter dado a devida satisfação aos cidadãos ali presentes? 2- Cadê o prefeito de Bacon City, que em campanha visitava até churrasquinho de gato em fundo de quintal e tomava Crystal quente, porém agora depois de eleito, ignora as necessidades daqueles que tão bem o recebeu em suas casas? Do vice, não se espera soluções, haja visto que o mesmo não trabalha nas sexta-feiras e vices, ninguém descobriu até hoje pra que servem! 3- Quem decidiu pedir reforço policial e baseando-se em quais argumentos? Nós os baconianos, queremos o nome do sujeito responsável pela irresponsabilidade. 4- Por que ninguém atendeu os assistidos imediatamente na chegada ao trabalho pela manhã, fazendo-os esperar até a exaustão e depois tê-los dispensado sem sequer alguém dar encaminhamento às suas necessidades? 5- Se não existe alguém preparado no órgão para executar esta triagem dignamente, então não seria melhor preparar alguém com propensa sensibilidade, do que mobilizar a truculência policial que deveria ficar restrita para ser usada em ações que fazem jus? Perguntas estas que gostaríamos muito de obter respostas, porém certamente não se dignarão. No entanto ficam por aí vagando neste nosso universo paralelo, junto com outras tantas que gostaríamos também que nos fossem devidamente elucidadas, como ao fato de um aliado político que está devidamente assentado na Promoção Social, aquele japonês da pastelaria que foi agraciado com um farto investimento na sua campanha para vereador. Como não foi eleito, agora repousa tranqüilamente na espera do próximo pleito, devidamente acampado no braço social da organização, local este que se mostrou tão útil no acalento e na fomentação de aliados, vide outras criações da área. Óleo de fritura nunca mais, está ungido pelo óleo abençoado da atual sagrada administração, aquela que faz tudo virar óleo pra queimar na potente máquina política, complexamente construída aos moldes da organização napolitana. Nós, os legítimos da paralela e excluída Bacon City, estamos no aguardo das respostas após os festejos natalícios da badalada Votuporanga. Por hora e para criar um factício lírico pertinente, nos coloquemos em lucubração profunda nos versos de “SELVAGEM” do Paralamas. A polícia apresenta suas armas Escudos transparentes, cassetetes Capacetes reluzentes E a determinação de manter tudo Em seu lugar O governo apresenta suas armas Discurso reticente, novidade inconsistente E a liberdade cai por terra Aos pés de um filme de Godard A cidade apresenta suas armas Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos E o espanto está nos olhos de quem vê O grande monstro a se criar Os negros apresentam suas armas As costas marcadas, as mãos calejadas E a esperteza que só tem quem tá Cansado de apanhar
Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 14h53
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