PAGA PAU CAPITALISTA
Bota comprada em quatro pagamentos na Ideal, chapéu com chequinho pré pra trinta e sessenta, jeans country levado em condicional e ainda nem finalizada a negociação, permanente da festa comprado em três vezes sem juros no pobrecard, devidamente acrescidos de vinte paus a mais, dez pra comprar um saquinho de quebra-queixo e uma maçã do amor e os outros dez, pra pagar o estacionamento onde ficará devidamente guardado o corcelão II, ano 83 LDO, quinta marcha, relíquia e patrimônio da família. EXPÕ/FISAV2009, porque diversão 100% filantrópica não tem preço!!! – Bem agora em agosto que eu havia acabado de pagar o financiamento do abada do CARNAVOTU!!! Depois vem setembro, outubro e novembro... Bom..., aí já dá pra ir na micareta e fechar o ciclo dos festejos filantrópicos anuais da boa família votuporanguense. Como bom filantropo, eu vou... A renegociação das parcelas da casa com a CDHU, o aparelho nos dentes do Zezinho (menino lambão, mas até arrumadinho, porém com aqueles dentinhos voltados pra ponta do nariz, característica esta que já lhe rendera o apelido carinhoso de Ronaldo) e a caixa de schin que nóis peguemo no f. lá na Lig Lev... Depois mais pa frente nóis vê!!! Na entrada do estacionamento, ele reconhece alguns dos senhores proprietários dos estabelecimentos comerciais onde ele havia realizado o tour pra satisfazer as suas fantasias e os seus devaneios consumistas obrigatórios - tudo coisas mínimas -, antes da festa. Eles também adentravam no estacionamento ao lado, porém não pagavam os dez paus, pois exibiam as credenciais da organização, seus carros adentravam até o interior do recinto, onde os seguranças os bem guardavam. Logicamente, uma vez já adentrado do recinto, também não precisavam pagar pelos ingressos, nem deles e nem de nenhum dos seus acompanhantes. O Chicão torneiro ficava lá na arquibancada, assistia o rodeio com toda a família espremida e de vez por outra, sentindo aquele fudum fétido que sempre alguém resolve liberar em público, parece que comeu papo de urubu – Deve ser o cheiro das cocheiras, dizia o Chicão pra toda a família, tentando justificar o desagradável odor, porém até o Zezinho na sua inocência angelical, já havia descoberto que cocheira de exposição cheira melhor do que cozinha de pobre. Depois do rodeio, o esperado show do artista do momento, Eduardo Costa..., esse goiano é afinado – Dizem que ele fez uma cirurgia plástica nas cordas vocais pra ficar com a voz idêntica a do Zezé. Isso não existe Chico, é lenda..., eu li tudo na Contigo e o Leão Lobo também desmentiu a fofoca (que fontes mais confiáveis poderiam existir)! Entre empurra-empurra e pessoas se espremendo e se acotovelando, Chicão tenta chegar o mais próximo do palco possível, quem sabe no final do show, poderia até pegar um autógrafo do grande artista. Enquanto isso, os bem aventurados gargalham nos camarotes vip, desfilando imponentes com suas impecáveis esposas, degustando socialmente aquele uísque importado, patrocinado gentilmente pelos deputados que prestigiam pessoalmente o evento, inclusive aquele dado a apadrinhar idéias estranhas de cassino e etc... O empresariado local e regional está todo lá e entre um gole e outro, abraços, declarações solidárias de amizade extrema e, negócios e parcerias estão sendo articuladas – Você é o cara!!! Antes de ir pro palco e privilegiar a platéia com o seu grande talento artístico e musical, eis que o dono da noite, também resolve dar uma passadinha no camarote vip pra rever e cumprimentar os que possibilitaram aquela estada ali. Novamente abraços e elogios ao grande artista, que se fez pelo talento puro. Uma palinha daquela preferida em capela – Estou escrevendo essa carta meio aos prantos... É só palmas novamente..., esse realmente é o cara!!! O cara vai pro palco e manda vê... O show é um sucesso. A multidão cantava patrioticamente as suas canções enquanto deliravam de emoção e em lágrimas. O Chicão torneiro então resolve tentar chegar perto do ídolo e conseguir arrancar-lhe um autógrafo, um troféu que seria oferecido a sua amada esposa como prêmio e prova da sua coragem e capacidade de proteger os seus, debaixo das suas enormes asas de pai e marido estimado. No meio desta muvuca, uma desinteligência se notou depois que alguém sorrateiramente se encheu de liberdades com Maria Batalha, esposa, amiga e amante de Chicão torneiro. Socos, tapas e pontapés, partiram de todo lado. As grandes asas protetoras que Chicão sempre ostentara no aumentativo - desde que ganhará aqueles bíceps privilegiados de tanto erguer bloco de motor na mão -, agora era arma e atirava pra todo lado, sobrando até pra face da amada Maria Batalha. Aparato policial mobilizado e situação parcialmente controlada, ainda restavam os gritos à distância – Vagabunda, meretriz..., bem que meu pai falô que você não prestava... Em seguida todo mundo pra delegacia a congestionar o plantão policial. Na semana que vem, o defensor público já está sendo mobilizado e é mais um relacionamento estável que vai por água abaixo, matéria-prima certa na mão do “Casos de Família” das Reginas Volpato ou da Christinas Rocha da vida. Depois de toda confusão na arena, o artista se recolheu rapidamente para os bastidores e novamente está na área vip a se desmanchar em elogios e em abraços com todos. Foi tudo um sucesso e, a confraternização é perfeitamente normal e possível entre os bem nascidos e bem educados, nada daquela possessividade obsessiva, muito distante daquela realidade pobre e dura que o artista atravessou pra chegar até aquela evolução profissional, social e pessoal. Naquele momento, ninguém é de ninguém. A filha do seu fulano, dono da indústria tal, levemente levanta e abaixa a pálpebra para o goianinho talentoso. Captado o sinal, tudo terminará na suíte do melhor hotel da cidade, onde o artista passará a noite antes de seguir viagem no dia seguinte. Os da área vip, certamente retornarão em total segurança paz e harmonia aparente para suas casas. O chicão..., pobre Chicão, este passará a noite com os nóias na cadeia. Maria Batalha no plantão da Santa Casa à esperar vaga para que o boliviano gringo lhe recoloque o maxilar de volta no lugar. E o velho corcelão adormecerá sozinho no estacionamento, recebendo toda aquela poeira e o sereno da madrugada, sem aquele providencial lençol protetor com o qual Chicão lhe cobria todas as noites antes de dormir!!!
Escrito por ROBERTO LAMPARINA às 15h41
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