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BRASIL, Sudeste, VOTUPORANGA, VILA MARIN, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Esportes, Informática e Internet
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BLOG DO ROBERTO LAMPARINA
 


BRASÍLIA 25 OU 30%, LIVRE

          Cinema realmente vai muito além de pipocas de microondas, é uma arte eterna. Depois de assistir o filme brasileiro “Brasília 18%” no Cine Brasil pela TV, com o Carlos A. Riccelli, Bruna Lombardi, Malu Mader e um bom elenco, tive a certeza de que brasileiro não sabe fazer filme mesmo. Não adianta, filme brasileiro não tem enredo consistente, o som é horrível, as imagens são embaçadas. Nas externas, você percebe facilmente a artificialidade nas filmagens, além das muitas cenas ridículas de nudismo do tipo baixo meretrício, acompanhado do linguajar típico, cheio de xingamentos e palavrões em desuso.

          Os 18%, se refere à baixa umidade atmosférica reinante no Planalto Central nos meses de seca, porém com a minha mente já devidamente contaminada pela exposição pública das façanhas da capital do poder, pensei logo ser a alíquota de alguma comissãozinha, sorrateiramente exigida por algum político em negociatas escusas durante a trama.

          Felizmente não era, era tão somente uma estória pobre de informações, com um roteiro obscuro e um péssimo ator no papel principal. O Riccelli não pode fazer papel de alguém que tenha que falar ou se expressar, ele é mecânico demais. Ele pode fazer papel de cabide, de cabine telefônica, de peso para papel, de aparador de charutos, porém no papel de Dr. Olavo Bilac no filme, ele estava completamente deslocado. Na cena em que a Malu Mader lhe privilegia com um sugestivo e ardente sexo oral no interior do automóvel, qualquer atorzinho amador transpareceria ser um astronauta que está pisando na lua pela primeira vez, porém o Riccelli parecia mais um pé de jabuticaba que estava sofrendo porque alguém lhe apanhara os frutos. Até parece que a Bruna e o Tony Bellotto estavam ali olhando a cena e ele ficou constrangido.

          Brasília é uma cidade planejada admirável, suas construções solidificadas de puro concreto e aço, foram feitas para uma grande durabilidade. Suas enormes avenidas sem esquinas, sugerem uma grande reta, com os imensos gramados dando acabamento na paisagem arquitetônica, porém na seca, aqueles gramados verdinhos dão lugar a uma paisagem desoladora do sertão nordestino. Como o título define, o filme foi rodado no período da seca, assim as imagens ficaram bem reais, porém poderiam ter sido mais bem conduzidas para que aparecesse o contraste do efeito natural do período do ano e as belezas monumentais que os homens criaram para representar a exuberância da Capital do Poder Federal.

          Brasília sugere grandes e luxuosos hotéis para receber políticos e pessoas importantes do mundo todo, condomínios destinados às representações e embaixadas internacionais, o endereço oficial dos três poderes, a sede administrativa das três armas, além de ser uma cidade comum, com muitos funcionários públicos e gente comum que alimentam as necessidades de todas estas estruturas. Quem conhece razoavelmente bem Brasília no plano físico como eu, conhece todos os setores e a sua distribuição. Tem o setor dos transportes, responsável pela logística, onde estão todas as transportadoras estabelecidas naquela área, o setor das Indústrias, das embaixadas, das mansões, das armas, os núcleos residenciais e assim por diante. No centro de tudo isso está o eixo monumental, bem no centro do Plano Piloto, com o famoso monumento a Bandeira na Praça dos Três Poderes, Congresso Nacional, Esplanada dos Ministérios, mais acima a Catedral de Brasília. Olhando da Praça dos Três poderes você avista uma faixa do cerrado que margeia o Lago Paranoá e mais a direita da pra ver a famosa ponte JK que atravessa o lago para o outro lado, ligando Brasília ao Lago Sul, Paranoá e São Sebastião.

          Toda esta organização e beleza arquitetônica de Brasília foi desprezada pelo roteiro do filme, que ficou com um acabamento muito pobre e ruim, com um foco muito distante de quem conhece a grandeza estrutural de Brasília no contexto da trama.

           Ainda falando do luxo e do lixo de Brasília, certa vez, bem no início do governo do Presidente Lula, eu estava em um mini-mercado em Sobradinho, cidade que fica nos arredores de Brasília, já no sentido de quem se dirige para o Nordeste do Brasil. Do outro lado da prateleira, eu escutava sorrateiramente uma conversa de um senhor ao celular. Era daqueles que não sabem falar em particular, falava alto como se estivesse falando para uma platéia de dez mil ouvintes, sem microfone. Aquele senhor afirmava para o interlocutor que já tinha conversado com o ministro fulano de tal e o emprego para a filha dele já estava arranjado no ministério – Não é aquilo que ela quer ainda, mais uma vez dentro, a gente chega lá!

          Brasília é isso, uma estrutura bela e gigantesca totalmente viciada, completamente dependente das estratégias e das artimanhas do poder. É uma espécie de corpo da Ana Hickmann e alma da Cruella de Vil. Lá, trocam-se os cachorros, mas os carrapatos continuam os mesmos, os que sugam o poder e se alimentam das suas imperfeições e incoerências, estão espalhados por toda parte, no centro do poder e arredores, cada qual visando o seu grau de influência e foco de ação. Existem possibilidades de interesses pra tudo.

          Pensando bem, estou envergonhado da minha inocência – Que político aceitaria uma comissãozinha mixa de 18%? Nem os do baixo-clero, políticos que conseguem chegar até o poder máximo de Brasília, não negociam nada com alíquota inferior a 25 ou 30% e, a festa nos luxuosos cabarés da república, fica como cortesia do comprador do serviço!

          Como sugere a novela Caminho das Índias em que todo indiano deve, pelo menos uma vez na vida, conhecer as águas sagradas do Rio Ganges para se purificar nelas, aqui no Brasil, cada brasileiro também deveria, pelo menos uma vez na vida, ir a Brasília para contemplar a sua grandiosidade e se conformar com a sua profana podridão. Afinal, existem coisas que não dá pra mudar, Brasília é uma destas coisas. Brasília, com todo o poder obscuro que brota das suas vísceras, representa metaforicamente o epitáfio da justiça, da decência e da moral. É onde se encontram os espertalhões vindos de todas as partes do Brasil, não poderia ser diferente. É mais ou menos como num BBB com todos os Gérsons do Brasil na casa, as câmeras desligadas e todo mundo tentando levar vantagem em tudo, o tempo todo. Quem não tem cueca de aço, é melhor se trancar no confessionário e não deixar ninguém entrar.

          O filme do Nelson Pereira dos Santos, levemente retira o véu que encobre esta sujeira toda e, este é o único ponto positivo do filme.

         



Escrito por roberto.lamparina às 03h40
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SÍTIO FELICIDADE

          A sociedade atual que foi direcionada a uma indução consumista para alimentar a pirâmide do Capitalismo, agora sente os efeitos da quebra de confiança do sistema e, tenta se autoproteger desta tendência consumista adquirida durante décadas por uma corrente que parecia inquebrável. Mas o elo se rompeu e, as pessoas ainda não conseguem entender como uma situação que parecia ser tão sólida e com crescimento constante, declinou de uma hora para outra, em uma crise mundial tão séria e com prognósticos tão ameaçadores para as nossas conquistas materialistas.

          Com o desemprego nos batendo as portas, as notícias da crise se tornam ameaças reais – Quem, dos que têm algumas economias guardadas, se arriscaria em gastar estas economias num momento deste. Poucos, a maioria está guardando estas economias muito bem guardadas, preparando-se para o prenúncio de dias piores.

          Os empregados não compram, pois correm o risco de perderem os empregos a qualquer momento. Os empresários, com a produção reduzida, se obrigam a diminuir o potencial produtivo e assim, dispensam os funcionários excedentes. O comércio, elo intermediário desta relação, está bem no meio da crise, parcialmente paralisado pelos seus efeitos. Desta vez a pirâmide está de ponta cabeça, puxando tudo para baixo.

          A receita de injetar dinheiro público na economia para fazer a roda girar, até poderá manter as ilusões de que tudo poderá voltar ao normal, porém o tratamento pode ser longo e o remédio está escasso.

          E agora, ideologicamente, como fica o liberalismo econômico pregado por todos os capitalistas? Deve ficar mesmo na forma de um título podre, esquecido no fundo de alguma gaveta, que como tudo que vai a bancarrota, deverá ser resgatado pelas arcas do Estado, aquele que deveria ser independente dos interesses e da ganância egoísta do mercado, para poder atender as necessidades básicas do cidadão excessivamente e extremamente tributado, que alimenta a sua estrutura.

          Mas então, a que mentira nos entregaremos agora se a ilusão capitalista acabou?           Logo eles aparecerão com outras, nós não conseguimos sobreviver de verdades, temos sempre a necessidade de nos alimentarmos com alguma coisa irreal para iludir este nosso desejo inconsciente de termos tudo sob controle. Imaginem só que pretensão, num mundo que não sabemos de onde viemos e muito menos para onde vamos – Ter que manter tudo sob controle!

          Como ficará o novo mundo sem fronteiras diante de uma crise dessas, onde as grandes nações desenvolvidas, que pregavam o livre comércio, mas investiam internamente no protecionismo aos seus setores estratégicos, agora mais do que nunca, praticarão este protecionismo escancarado para protegerem-se dos efeitos da crise mundial. Com a ruína deste capitalismo especulativo de Wall Street, desmorona junto a ALCA e o pobre MERCOSUL, que ainda estava em fase de levantar alicerces.

          A ilusão acabou bem no meio da festa. Eu sou de uma geração intermediária, por isso os efeitos desta crise não me ameaçam diretamente, já passei e conheci o difícil.

          Quando criança eu ia para o sítio do meu avô na região de Palmeira do Oeste. Pra chegar lá, só tinha asfalto até Jales, depois era estrada de terra. Na seca, era aquele poeirão, nas águas, ficava tudo alagado. O meu avô era um dos grandes proprietários rurais da região, tinha 50 alqueires de terras em uma região de pequenas propriedades. Quando você passava pelas ruas da vila, que meu avô também ajudou a fundar junto com outro amigo pioneiro daqui de Votuporanga (Antonio Marin Cruz) que, saíram daqui a cavalo em comitiva, para comprar terras naquela inóspita região de então, onde depois se chamaria Marinópolis (em homenagem ao seu Antonio que fixou moradia nas terras adquiridas lá), dava para escutar os murmúrios das pessoas falando – Aquele é neto do seu João Martins. Lá não tinha energia elétrica, nem água encanada, nem geladeira, nem nada. A noite era iluminada com lampião a gás, lamparinas a querosene e velas. Os tradicionais pinicos ainda repousavam em baixo das camas para as emergências líquidas. A geladeira era um balde de alumínio cheio de água onde se jogava na água uma porção de uréia, ou sulfato de amônio, fórmula de adubo químico a base de nitrogênio, que em contato com água, a resfria, aí então nós colocávamos umas garrafas daquela tubaína de Tanabí, que levávamos de Votuporanga, para refrescar dentro do balde e tomar o conteúdo bem fresquinho. A água de beber saia da cisterna e era colocada num grande pote de barro que ficava num cantinho da varanda da sede principal. O chuveiro era um balde de 20 lts., com um mecanismo para ligar e desligar a ducha. Você colocava a água quente que ficava no fogão de lenha e se molhava, aí fechava e se ensaboava, depois abria e se enxaguava. A água era puxada da cisterna no sarilho e os bois do carro, bem cedinho vinham para perto do terreiro e começavam a berrar, impulsionados pelo hábito da canga. Em 77 chegou por lá a energia elétrica, depois adquirimos o trator e tudo aquilo que se tornou normal e natural no desenvolvimento que se seguiu. Hoje, aqueles tempos tão vivos em minha memória, são completamente inimagináveis para esta nova geração, que se ficar com a internet fora do ar por mais de um dia, será o fim do mundo, morreremos todos de uma depressão coletiva. Deve ser este o domínio das máquinas que os filmes de ficção do passado tanto falavam.

          Acostumamos-nos com o computador, com o controle remoto, com o celular, com o Nike fajuto de Hong Kong, chegando aqui via Paraguai e Bolívia por 10 dólares e sendo vendido no comércio local por 150 reais, com todas estas coisas modernas e descartáveis que o progresso capitalista acelerado dos últimos trinta anos nos trouxe. Não dá nem pra pensar em viver sem estes tarecos.

          Desde 93, já não mais existe o Sítio Felicidade lá no Córrego das Três Barras em Marinópolis, eu não tenho mais aquela égua roxinha que selava todos os dias nas minhas férias e saia pro campo, com minha tralha de arreio, com o meu pelego branquinho de carneiro e, no picuá amarrado ao lado, um martelo pendurado e alguns grampos para arrumar as cercas quebradas pelo gado.

          Não que eu gostaria que voltassem aqueles árduos tempos, mas bem que poderia, só pra ver umas donas que andam por aí de salto agulha, na garupa de um moto-táxi, em plena segunda ao meio dia, tendo que fazer sabão de soda, como fazia a minha avó, para lavar as roupas, esfregando o umbigo em um fogão de lenha e pretejando todas as panelas com aquele carvão da lenha.

          É pena que não chegará a tanto, mas seria uma grande lição para esta e para as futuras gerações!

       

 



Escrito por roberto.lamparina às 15h44
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A LETRA DA LETRA

CLASSE MÉDIA

Autor: MAX GONZAGA

 

 

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente
em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é
em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente
em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida

 

Se minha fosse a obra, certamente eu a nomearia de PENA DE VIDA, muito mais adequado.



Escrito por roberto.lamparina às 18h30
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