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BRASIL, Sudeste, VOTUPORANGA, VILA MARIN, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Esportes, Informática e Internet
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BLOG DO ROBERTO LAMPARINA
 


NEGO FORRO

 

          Com a chegada na cidade do pessoal que está trabalhando no corte da cana para uma usina da região, a cidade muda às características habituais que já estamos acostumados e, toma contornos característicos de outras regiões do país. É muito bom, principalmente para que os nossos habitantes que, talvez nunca tenham tido algum contato mais próximo com brasileiros de outras regiões, possam tomar conhecimento dos seus costumes e da sua cultura, do sotaque nortista e nordestino, para que nos reconheçamos como parte de um Brasil gigante, com diferenças incríveis e chocantes que, por ocasiões, não nos atemos ao fato de sermos todos parte desta grande Nação.

          O pessoal está acomodado em alguns blocos de apartamentos e, às vezes eu passo ali pela região do prédio bem à tardinha e vejo todos aqueles trabalhadores por ali, longe das suas famílias, morando todos comumente com os seus hábitos e trejeitos típicos. No local tem sempre uns vendedores ambulantes que estão na porta do prédio fazendo suas vendas e, vendem de tudo pro pessoal, é sapato, tênis, roupas, frutas, verduras e legumes, tudo ainda naquela cadernetinha, nada de cartão de crédito, cheque e estas coisas modernas de hoje não, devidamente anotado na velha cadernetinha do fiado. Me faz lembrar das feiras do norte e nordeste, lembranças nítidas de Caruaru-PE, cidade que tem uma das maiores feiras livres do nordeste brasileiro, uma multidão de barracas coloridas e de gente idem, vendendo desde o ovo choco, até o pinto crescido, ou a de Belém-PA, no Ver-o-Peso, o maior mercado a céu aberto do mundo, localizado estrategicamente na Doca do Porto de Belém, uma enorme feira livre onde você pode encontrar desde relógios de procedência altamente duvidosa, até os mais raros artigos de umbanda, além de tudo que se imaginar em artigos regionais, ervas medicinais, garrafadas naturais, peixes, carnes, verduras eletro-eletrônicos novos e usados, etc. O cheiro do local, com tanta diversidade de produtos, principalmente o peixe que chega em barcos pela manhã e é limpo ali mesmo na praça a beira do rio, é uma fragrância bastante contestável, porém a vida que exala daquele local é algo indescritível e tipicamente forjado na imensa capacidade do brasileiro de se virar, de encontrar jeito pra tudo.

          Logicamente, onde existir pessoas, existirá comércio, comerciantes e consumidores, assim o pessoal do comércio informal, logo descobriu aquele filão ali do prédio e, estão fazendo bons negócios, presumo. Até concorrência já tem, o que é muito sadio. Primeiro era só um carro de frutas e verduras que estacionava ali, agora já são dois. Diversos informais se revezam com outros artigos. Alguns chegam lá, estendem um plástico no chão e espalham todos os seus produtos para a apreciação do freguês, tipicamente aos moldes das feiras nordestinas.

          Os nossos hóspedes temporários estão movimentando bem os diversos setores da economia local. Até alguns pratos típicos da culinária nordestina já estão sendo servidos nos restaurantes da cidade por influência do gosto deste pessoal por estas iguarias típicas, o que é uma outra boa influência.

          Os comerciantes estabelecidos nem podem reclamar, pois este pessoal precisa de crédito fácil e rápido, são de fora, estão de passagem e, não correspondem ao perfil do consumidor característico com crédito formal estabelecido e avalizado pelos cadastros das centrais de crédito. Então, com a coragem dos comerciantes informais em venderem em confiança, é só anotar na cadernetinha, passando depois pra receber no dia do pagamento da usina e, Amém...

          A paisagem ficou mesmo diferente naquela região. Você passa por ali e vê as roupas secando, penduradas nas grades da sacada do prédio, o que já rendeu o apelido de "Carandiru" aos blocos de apartamentos.  À noite, uma multidão passa as horas ali fora conversando, ouvindo música, esperando a hora de dormir pra no dia seguinte recomeçar a dura jornada de escravo esquecido na senzala pelos séculos, sob a injúria de nego forro, ou branco, tanto faz, o crime é o mesmo, o castigo também. A única diferença é que a escravidão agora é autônoma, o sujeito recebe a mixaria com uma mão e com a outra, paga a ração do sustento e, que não falte, pois já deixaram à dureza e a miséria lá das suas regiões de origem, na busca por uma vida digna para os seus.

          Terrível é a solidão, mas até aí, de improviso, dá-se um jeito. Dizem que ali por aquelas imediações não tem mais véia solitária, nem feia, muito menos muié sortera, "passam o rodo" em tudo que aparecer. Até o mercado para os travestis que ficam ali pelas redondezas está em alta. As "bonecas paraguaias" estão inflacionando o mercado do amor pago. Disse-me um informante que, estão até aceitando ticket como forma de pagamento, o que de certa forma, não deixa de cumprir a função de ticket alimentação!

          Piadas a parte, temos que demonstrar o devido respeito por este pessoal tão sofrido e, que estão dignamente tentando ganhar o seu sustento. Num país onde a sujeira declina de cima pra baixo, não permitindo sequer que o suor do gelo das taças de champanhe dos que estão em cima na pirâmide, mate a sede dos que agonizam em baixo, o sujeito levantar às 4 ou 5 da manhã e ter disposição e ânimo para enfrentar os golpes do "podão", dia após dia, de sol a sol..., só por ordem e graça de DEUS.

          Me fez lembrar dos versos de "Nego Forro", uma letra do Chico César, bem pertinente com o assunto e, até dá pra ter dupla interpretação:

          Xale voa no cangote

          Chamego de fazer dó

          Dá pra ouvir a gemedeira

          A sala numa nota só

          É um tal de ui e ai

          Mas quem ta dentro não sai

          Pois é de nego forro

          Esse forró

 

     



Escrito por roberto.lamparina às 19h17
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