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BRASIL, Sudeste, VOTUPORANGA, VILA MARIN, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Esportes, Informática e Internet
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Blog de roberto.lamparina
 


O DONO DA BOLA

 

          Nestes dez anos em que me permitem devanear sobre diversos assuntos no Jornal mais tradicional e tão importante para o crescimento e o desenvolvimento de Votuporanga e região, muitas vezes usei este veículo para expressar o meu amor pela cidade. Desta vez, sei que não será possível usá-lo, pois as minhas palavras pareceriam propaganda eleitoral e seria crime, mesmo não sendo, é apenas relato de um nativo que ao expressar as suas experiências, demonstra o amor e o respeito pela sua cidade e por todos que aqui residem.

           Aqui nasci, na mesma casa onde ainda moro até hoje, aqui me alfabetizei na escolinha de bairro, no velho MIMO, cinco quarteirões da minha casa, onde nos meus primeiros dias na escola, todo dia era abordado pelos “maloqueiros da rua’, como se chamavam naquela época, a molecada que se criava a solta pelas ruas, meio igual cachorro vira-latas, de lixo em lixo e, roubavam o pão com alguma coisa que eu levava na lancheira para comer no intervalo. Alguns dias de aula e aprendi a desviar daqueles meninos e fiquei até amigo de alguns deles. Alguns..., muitos até já morreram, cumpriram penas por pequenos delitos e outros não tiveram a minha sorte e, são vítimas das drogas e de outras desventuras que cercam a vida dos menos favorecidos. Graças a minha criação rígida, principalmente pelo meu pai, fui desviando também de todos estes descaminhos que estavam traçados pra mim na mesma medida e proporção dos que se perderam neles.

          Tínhamos um time de futebol aqui no nosso lado da Vila e o nosso estádio era no campinho dos funcionários da Móveis Cacique que era de propriedade do seu Adauto Lupo. Naqueles tempos, o esporte da molecada pobre era só o futebol. Pobre normalmente era raquítico e baixinho (o contrário de hoje), não dava pra jogar nem vôlei e muito menos basquete, então o futebol era a nossa praia. O nosso time era muito bom e andávamos por todos os bairros e campinhos da cidade jogando contra os times das outras localidades. Na estação, na Vila América, no Café, aqui mesmo na Vila Marin, tínhamos um arquirival que sempre estávamos em guerra pra ver quem era o melhor da Vila.

          Um dos nossos adversários aqui na Vila, era um timinho da molecada que morava ali perto da São Bento. Jogamos contra eles algumas vezes, ora futebol de campo, ora futebol de salão, numa quadrinha toda com as fissuras abertas no concreto do piso, já com o mato nascendo e que ficava do lado da velha paróquia no Largo São Bento.

          O nosso time era de molecada criada na rua, sem camisa e todo queimado do sol, de pé no chão, ou no máximo um par de Kichute nos pés (calçado popular da época). O nosso jogo de camisas, cada um pintava o seu número nas costas e quando o jogo terminava, levava pra mãe lavar, o que me custou muitos cascudos da minha. O time deles era da molecada que morava ali por perto da praça e, normalmente de um poder aquisitivo melhor, tendo até alguns riquinhos no escrete. Camisas limpas e da última moda esportiva, bons tênis, mas no futebol..., só dava “nóis”!

          Bola era um problema, pois ninguém tinha, uma oficial então, nem pensar. Os que possuíam uma bola eram titulares nos seus times, independente de terem qualidade para tal.

          Neste timinho que jogamos contra algumas vezes, tinha um menino branquinho, ele era um pouco mais novo do que o resto da molecada, cabelo sempre bem cortado, sempre com bons tênis nos pés, aplicado e muito bem educado. Vinha sempre com uma bicicleta daquelas de marchas que na época era o sonho de todo menino, apesar de morar em uma das casas mais bonitas do bairro e bem ali defronte do Largo. Ele era muito ruim de bola, hoje seria figura certa no quadro “bola murcha” do irmão do Oscar. Um dia eu presenciei um desentendimento entre os moleques do mesmo time, onde um deles se revoltou contra a péssima atuação daquele menino branquinho e o xingava acintosamente com aqueles nomes que moleque tem na ponta da língua, enquanto um deles mais centrado e com espírito de liderança repetia desesperadamente – fulano, não fala assim com ele, ele é o dono da bola, depois ele vai embora , leva a bola e o jogo acaba! A crise interna passou depois desta recomendação e o jogo continuou. Bem à tardinha, vinha sempre uma moça com uniforme e o chamava pra ir embora e, ele pegava a bola, a sua bicicleta e ia pra casa na companhia daquela moça.

          Nós nunca fomos amigos e, depois de revelar esta verdade sobre as suas habilidades, ou a falta delas na bola, provavelmente nunca seremos, porém eu o conheço e acompanhei todo o seu desenvolvimento humano em todas as fases da sua vida, o que certamente não foi recíproco pela minha própria invisibilidade.

          Mais tarde, eu já motorista profissional e sócio proprietário de um ônibus de turismo fretado para levar os estudantes até a faculdade de Direito em S.J. do Rio preto, novamente os nossos caminhos se cruzaram e ele desta vez, estava prestes a se formar no curso de Direito e viajava comigo no ônibus. Ele era um daqueles poucos que realmente freqüentava as aulas, pois muitos dos senhores doutores advogados que exercem o ofício hoje, foram exímios artistas numa mesinha de bilhar que tinha no boteco em frente à FADIR e se especializaram mesmo foi em enrolar o pai e a marijuana, além é claro de praticarem assiduamente o “triatlon” - cerveja, bilhar e se sobrar um tempinho entre a garrafa e a mesa, as belas universitárias que desfilavam oferecidas pelos arredores da faculdade.

          Novamente muitos anos se passaram e aquele menino branquinho de boa índole e ruim de bola, mas que tinha uma bola, agora é candidato a prefeito da nossa cidade..., minha, dele e de toda aquela molecada daqueles tempos, que estão ainda espalhados por aqui e por ali, na bela cidade que Votuporanga se tornou.

          Eu não tenho absolutamente nada contra a sua candidatura, pelo contrário, eu o conheço de toda a vida e, o acho uma pessoa totalmente do bem, porém é notória a sua falta de preparo e de sensibilidade para conduzir nossos desígnios, transitando pelas diversas camadas sociais que compõem a nossa cidade, características estas que um prefeito precisa ter para poder governar para todos os membros da sociedade. Ele até pode, nestes dias que faltam para o pleito, melhorar o seu trânsito junto aos mais pobres e até se tornar popular no meio deles, porém como água e vinho não se misturam, será apenas uma estratégia de campanha que terminará na festa da vitória. Os caminhos políticos estão todos abertos pra ele, porém não é possuidor desta sensibilidade popular.

          Quase trinta anos se passaram e aquele menino branquinho ainda é o dono da bola e, eu gostaria de ver esta bola rolando em outros pés, pois governar a minha cidade não tem a mesma importância daquelas peladas descomprometidas e disputadas no cair da tarde lá no Largo, onde para o nosso time era ótimo que ele ficasse com a bola, pois ele era tão ruim que quando pegava na bola todo mundo murmurava – esse não precisa marcar, é copo de leite, deixa que a natureza marca!                 

                



Escrito por roberto.lamparina às 12h37
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OS COLECIONADORES DE OSSOS

 

          Nós estamos vivendo momentos históricos na televisão brasileira. Com a ascensão de um segundo grande grupo de mídia no setor televisivo público, a emissora que era a toda poderosa e grande formadora de opinião praticamente sozinha, já não tem mais todo este poder de convencimento e está obrigada a dividir a tarefa com um outro grande império da mídia que se formou também de maneira nada ortodoxa do ponto de vista moral, porém já está produzindo frutos positivos para toda a nossa sociedade brasileira, compondo a sua função do ponto de vista prático.

          Nos moldes da primeira, a segunda já descobriu o fascínio do brasileiro pelas novelas e montou rapidamente também uma fábrica de ficção aos moldes da grande indústria empreendida pela primeira. Emprega a mão-de-obra especializada e excedente da primeira e, faz da venda do horário nobre novelístico, o seu carro-chefe financeiro, tornando-o impulsionador das suas outras linhas de programação, como programas jornalísticos descomprometidos e de alto nível, sem meias palavras. A divulgação das teorias religiosas coordenadas pelo mandatário supremo da emissora, virou o pano de fundo nos interesses extras da emissora.

          Enquanto uma emissora vai até a África falar de como vivem os herdeiros de uma raça de macacos que sobrevivem e se adaptam as transformações do mundo por centenas ou milhares de anos, a outra sobe um dos morros cariocas entregues a própria sorte e mostra a realidade dura dos descendentes evoluídos dos macacos, os homo sapiens, aqueles que até já conseguem ficar de pé, porém abrem mão da postura ereta para viverem agachados nas quatro patas para não serem alvejados por balas perdidas, vida dura de seres humanos que dizem ter passado por um período de evolução, porém vivem exilados do mundo das belas paisagens das selvagens savanas florais africanas e sim, vivendo nos “Alpes Cariocas”, complexos favelários indignos da existência humana, em meio a tiroteios freqüentes nos morros, na guerra entre traficantes, milícias e poderes constituídos.

          Nesta guerra pela audiência, os fins justificam os meios e, os meios com que a segunda se baseia para compor o seu cenário, é a realidade nua e crua como se apresenta no momento.

          No outro lado, a primeira é submissa e passiva, levemente aborda os assuntos corriqueiros do dia-a-dia das grandes cidades sitiadas pela violência fora de controle e pela guerra declarada entre facções do mundo do crime que usam esta população completamente desprovida de qualquer tipo de proteção, como escudo vivo nesta guerra pelo poder. Esta primeira preferencialmente se especializou em alimentar a fogueira política que arde entre os dois principais grupos que se revezam no poder, a espalhar no ventilador todo o odor fétido que exala desta relação, além do sensacionalismo jornalístico que rendem os casos passionais e as tragédias familiares geradas pela louca existência humana e motivadas pela exaustiva vida moderna, como no caso Isabella Nardoni e outros já mais remetidos pra dentro das gavetas do esquecimento, tudo fruto é claro, do financiamento político do lado que sustenta financeiramente as renegociações das dívidas da emissora com os sistemas financeiros público e privado, podendo assim, manter o padrão de qualidade atingido e se manter entre os gigantes da mídia mundial.

          A segunda ainda não se acostumou com a grandeza adquirida, sabe-se lá de onde, nem como, ou que fingimos não saber, porém está usando esta grandeza, por enquanto, em prol do povo brasileiro. Suas novelas são os retratos fidedignos do cotidiano brasileiro, mergulhado na violência, corrupção social, policial e dos valores que estão transformando os brasileiros nestes seres transparentes e, manipulados de acordo com os interesses do grupo que está no poder no momento. Aproveita-se da fraqueza da primeira no quesito comprometimento com a verdade e não tenta criar um mundo paralelo fictício. Suas favelas são sujas e malcheirosas, assim como as verdadeiras, suas prostitutas são banguelas esqueléticas pela fiçura em crack e contaminadas de HIV e, não como aquelas gurias gauchinhas top model da casa da cafetina Sirene da novela das oito, ou do cafofo do cáften Jojo na novela passada. Raparigas iguais àquelas são tudo de bom, é tudo que a minha mãe sonhou como nora a vida toda e só deve existir de verdade nos cabarés que rondam o poder em Brasília. Nos prostíbulos da vida real, as vítimas são quase analfabetas, desestruturadas emocionalmente, viciadas em drogas e álcool e sequer têm completa noção de proteção da própria saúde, não sabendo usar corretamente os preservativos que as protegem e aos seus clientes não só da AIDS, como de uma infinidade de outras doenças.

          A batalha pela audiência é uma guerra diária, motivada pela condição de atrair e representar os milhões de espectadores que se tornaram consumistas em potencial, onde agora com o dinheirinho que está sobrando mais fácil no bolso, são os alvos do assédio de quem precisa lhes estimular a consumir mais e mais, para alimentar está máquina chamada televisão, máquina esta que nos ensinaram no passado a sermos totalmente dependentes dos seus conceitos e dos valores a nós impostos pelos que mandavam naquela época. A diferença está só nos valores dos que mandam agora, do resto, nada mudou verdadeiramente e esperamos com esta real concorrência, assistirmos as verdadeiras mudanças em um futuro breve.

 



Escrito por roberto.lamparina às 20h49
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