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CRAZY HORSE

 

          Como se já não bastassem os problemas que temos, ainda temos que atender as encomendas dos problemas externos.

          Agora, somos nós os causadores da fome no planeta, só porque aumentamos o plantio de cana para atender a uma demanda de combustíveis renováveis que o mundo e a vida neste planeta exigem. A nossa capacidade produtiva de alimentos ainda não diminuiu, como mostram as previsões para a safra 2008, pelo contrário, aumentaram em relação à safra 2007. Como então somos os culpados pela escassez e a diminuição da produção de alimentos pelo mundo?

          O mundo optou pelo modelo capitalista de administração e no Capitalismo, tudo está direcionado para onde os capitais provêm com mais fartura. Sendo assim, o Brasil só está pondo em prática tudo o que os nossos pupilos da economia aprenderam com os americanos em Havard e com os ingleses em Cambridge e Oxford, os grandes difusores do Capitalismo e que formam centenas de mentes brilhantes todos os anos e espalham pelo mundo.

          Não poderiam culpar os americanos, não é bom pra saúde e nem pros dentes do acusador, lembram do Saddam Hussein, então, culpam o Brasil. O direitão francês foi o primeiro, depois outros timidamente elegeram o Brasil como alvo.

          O mesmo critério é usado para dar pitacos na política indigenista, como se nós não fossemos uma nação soberana e precisássemos pedir ordem daqui e dali para tomarmos qualquer tipo de resolução sobre o assunto.

          Os EUA deram carta branca para que o tal General Custer massacrasse os seus índios e ele até que tava indo bem. O tempo começou a fechar quando os chefes sioux Touro Sentado e Cavalo Louco cercaram a sétima cavalaria comandada pelo Custer e encheram eles de flechas, matando o regimento inteiro na batalha conhecida por Little Bighorn. Mais isso você já sabe desde criancinha, contada na versão branca americana da sétima arte. O que você talvez não saiba, é que está em construção no estado da Dakota do Sul, cenário da batalha, uma escultura monumental em homenagem ao guerreiro Crazy Horse (Cavalo Louco). Esta obra foi iniciada pelo escultor autodidata Korczak Ziolkowski em 1948, depois de 34 anos trabalhando neste projeto, ele morreu em l982, porém sua esposa ainda continua tocando o projeto que tem a pretensão de ser a maior escultura do mundo.

          Os Europeus, esses escravizaram, massacraram, pilharam e cometeram todo e qualquer tipo de injustiça e pecado que se possa imaginar contra os indígenas da América Latina, continente que eles colonizaram e exploraram as suas riquezas por centenas de anos e que até hoje é o capital oriundo desta exploração que permite o bem viver do continente, porém agora, puritanamente invadem as nossas florestas com as suas ONG’s interesseiras, para distribuir lições de boa convivência e respeito entre os brancos e as comunidades indígenas. Por que será que não agiram assim quando escravizaram os índios e debaixo da chibata colocaram-nos para trabalhar nas minas de prata do Vale do Potossi, exterminando várias etnias de indígenas. E os nossos algozes portugueses que também se aproveitaram da mão-de-obra gratuita dos indígenas e produziram um genocídio histórico de índios e negros nas minas de ouro e pedras preciosas de Ouro Preto das Minas Gerais.

          Agora todos têm receitas de harmonia e boa convivência. O Brasil moderno dos dias atuais, cheio de interesses contrários aos dos indígenas que querem a terra para manter a boa vida que eles aprenderam a usufruir com o homem branco, também cometeu e ainda comete crimes horríveis contra os indígenas. A lei ainda impera a favor dos mais fortes e cabe a nós impedirmos que estas injustiças aconteçam internamente.

         Um dia desses eu conversava com um grande latifundiário de terras que possui uma propriedade em Água Boa, região do MT onde poucos proprietários de terras possuem legitimidade da terra e uma boa parte das terras não têm documentos de propriedade, pois foram avançadas sobre as demarcações de terras dos indígenas. Este senhor já bem de idade me dizia – quando eu cheguei aqui no começo dos anos 70 eu comprei um pedaço de terra e o resto eu fui cercando e tocando o gado para pastar, se aparecesse algum índio pra reivindicar propriedade, coitado dele!

         A terra irregular, em teoria, não serve ao agricultor porque não consegue financiamentos para poder empreendê-la sem o título de propriedade e, poucos possuem as condições para tocar as lavouras com os seus próprios recursos, porém para o pecuarista, é só cercar e já é o dono.  Este é o verdadeiro inimigo dos indígenas e não só dos indígenas.

         

 



Escrito por roberto.lamparina às 14h17
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O ANJO DA GUARDA

          O homem é realmente uma vítima da sua própria condição. Sem saber de onde veio e muito menos pra onde vai, este se torna refém desta sua condição de incertezas e do total desconhecimento da sua existência.

          Você que se acha bem resolvido espiritualmente dirá – eu já encontrei o meu caminho e nele sou conhecedor dos meus desígnios. No entanto quando os fatos ultrapassam o limite entre a realidade e a ficção que a espiritualidade fornece, novamente você se tornará uma vítima da incerteza.

          A estória que se segue, é verdadeira e educativa, além de que, mostra toda a nossa fragilidade diante do desconhecido.

          Eu estava em uma lanchonete em Sinop-MT e no balcão, tomava um café depois da refeição quando um desses andarilhos que andam de um lado pra outro em situação miserável e vivendo da benevolência alheia se encostou em um senhor que estava do meu lado e pediu-lhe que pagasse alguma coisa pra comer. Este, de imediato se negou a contribuir com alguma coisa e começou a julgar e a ofender o indivíduo que naquele momento já se encontrava há meu ver, na pior de todas as situações humanas, a situação de dependente da misericórdia alheia. Você tem o direito de não contribuir, porém você não pode menosprezar ou tratar com desdém alguém que não precisa do seu julgamento e sim da sua misericórdia. Vivendo a muitos anos na estrada, esta é uma lição que aprendi sozinho, porém tem gente que precisa de ajuda para aprender certas coisas.

          Prestando atenção naquele senhor judicante e completamente seguro de si que exaltava com louvor as dificuldades com que ele próprio ganhava a sua vida, percebi que não me era estranha a sua fisionomia e como por um flash de memória, lembrei-me de quem se tratava aquele senhor.

          Há mais de vinte anos atrás, eu trabalhei como auxiliar de escritório em uma unidade de uma grande empresa de fertilizantes que possuía uma filial aqui na cidade e era daqueles tempos que eu conhecia aquele senhor que morava em Fernandópolis e prestava serviços como transportador autônomo para a empresa que eu trabalhava. Por uma destas facetas da complexa máquina que é o nosso cérebro, até hoje eu consigo me lembrar do número do CPF, nome completo e até o número da habilitação de todos os caminhoneiros que prestavam serviços para a empresa naqueles tempos. Eu mal consigo me lembrar destes dados meus, porém por uma destas desconhecidas circunstâncias, os desses senhores, frequentemente povoam o meu inconsciente de memória.

          Pra me certificar de que era realmente a pessoa que eu julgava ser, saí rapidamente da lanchonete e dando uma volta no pátio do posto logo encontrei um caminhão com a placa da nossa vizinha Fernandópolis e pude ter a certeza de que se tratava mesmo daquela pessoa que eu conheci há muitos anos atrás. Contando com a invisibilidade camaleônica que sempre me foi característica, ali começava uma lição que aquele senhor certamente jamais se esquecerá enquanto viver.

          Voltei à lanchonete e novamente me encostei no balcão ao lado daquele senhor e disse-lhe:

          _ O senhor também teria a coragem de me negar alguma coisa para comer?

          Espantado, ele me olhou e disse:

          _ Eu o conheço de onde? Respondeu o senhor com outra pergunta intrigado com a primeira.

          _Você me conhece de toda a vida em que sempre estive ao seu lado, João da Onça!

          Ainda mais intrigado por eu conhecer o nome com que ele era conhecido por todos e depois ainda eu complementei com o seu nome completo de batismo e declarei o número do seu CPF. Neste momento o ar de superioridade que ele ostentava, começava a ser substituído pelo ar da dúvida, porém ainda era pouco para sedimentar uma credibilidade que eu precisava ostentar.

          Naqueles tempos em que eu trabalhei com o João da Onça, lembrei-me de quando ele dando um ré com seu veículo no pátio da empresa, batera em um dos postes de alta tensão no interior do pátio e por muito pouco não caiu sobre o próprio veículo que ele operava e alguns meses depois, carregado de fertilizantes, ele tombou o veículo numa baixada aqui perto do trevo de Valentin Gentil e, estas informações me seriam muito oportunas.

          _João, você lembra quando há mais de dez anos atrás você bateu num poste? Fui eu quem o segurou para não cair sobre a cabine e quando você tombou lá pertinho do trevo de Valentin, foi a minha mão que te protegeu da morte certa que te chamava...

          Diante de tantos argumentos verídicos, João não tinha mais dúvidas de que estava falando com o seu próprio anjo da guarda e, já quase sem voz disse-me:

          _O que o senhor quer que eu faça?

          _Nada João, nada que não esteja ao seu alcance, o seu irmão ali no canto está com fome e você lhe negou de comer...

          Imediatamente o João da Onça mandou preparar um marmitex e entregou para aquele senhor que lhe agradeceu em nome de DEUS.

          Neste momento, eu me aproveitei da situação e despercebidamente deixei o local saindo dali e indo dormir em outro posto. Eu nunca mais vi o João e, este acontecimento já tem mais de dez anos.

Ps; obviamente o nome João da Onça é fictício, porém se o verdadeiro João algum dia ler este texto, ele saberá que ele foi o protagonista principal desta estória.

         

 

         

 



Escrito por roberto.lamparina às 14h12
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