AMIGÃO DO ZORRO
O homem provavelmente é o único animal que agride aquele que o alimenta. O cão por mais feroz que for, daquelas raças geneticamente aperfeiçoadas para serem agressivas, por mais que ele tenha este extinto manipulado e agravado como defesa prévia, em algum momento ele se torna dócil e carinhoso pelo menos com aquele que os alimenta todos os dias. O leão criado em cativeiro, idem, bem alimentado, ele não está nem aí se o seu domador é mais fraco do que ele ou não, poderia liquidar aquele fracote com uma pata amarrada nas costas, porém convenientemente, o domador estabelece a ordem e o rei das selvas pula pelo arco de fogo, senta no banquinho, de vez em quando dá uma rosnada mais firme pra avisar ao domador que ele manda no show, mas a fera ali, é ele.
Já com os homens, esta lei de cordialidade e cumplicidade mútua, não funcionou muito bem no dia sete último em Rondonópolis-MT. Estavam ali mobilizados por um movimento grevista liderados por quatro das grandes empresas que operam com transporte de grãos, centenas de motoristas que exerciam livremente o seu direito de não concordarem com medidas impostas sobre todo um setor sem se quer serem consultados ou inquiridos a respeito. Protestavam pacificamente, sem os excessos incontroláveis que normalmente ocorre nas manifestações que envolvem grande quantidade de pessoas. O movimento já estava próximo de quarenta horas quando a autoridade do Poder Judiciário de Mato Grosso chegou com a ordem de desobstrução, se preciso com o uso da força e, a imediata dissipação do movimento grevista com prisão pra quem não acatasse a decisão judicial.
Eu, com meus muitos anos na estrada, já vi de tudo um pouco e já presenciei quase tudo que se possa imaginar, desde casal que tranquilamente praticava sexo oral em plena via D. Pedro I, uma das mais movimentadas do país, enquanto fazia manobra de ultrapassagem, até manifestações que duraram quinze ou vinte horas onde os moradores de alguma cidade, simplesmente revoltados com a falta de uma passarela, colocavam barricadas de pneus na estrada e obstruíam a passagem para chamarem a atenção para o problema, porém eu nunca presenciei uma arbitrariedade tão grande quanto a da Justiça matogrossense.
Os grevistas não estavam obstruindo a passagem pela Br, só estavam impedindo os próprios companheiros de boicotarem o movimento, o resto estava transitando normalmente. Em um setor gigante e completamente desordenado como o transporte, não existe união e muito menos unanimidade, e pagaram o preço por toda esta dissonância.
Mesmo sendo no perímetro urbano de Rondonópolis, como a questão era da competência da PRF, foi ela a responsável pela dissolução com o uso da força contra trabalhadores que pacificamente usavam do seu sagrado direito de discordar de uma atitude imposta por um judicante completamente desconhecedor da matéria pela qual usou das suas atribuições sem medir as conseqüências dos seus atos.
A ironia, é que os escudos e a munição de borracha, os cacetétes e as bombas de efeito moral, o spray de pimenta e a violência incontida dos homens que supostamente estão a serviço da lei e da ordem, foram instrumentos brilhantes e essenciais nas mãos de pobres almas que no dia-a-dia normal, vivem a coagir os que conseguem trabalhar o mais próximo possível do que a lei determina e extorquidos são por uma luz de placa que momentaneamente, pelas péssimas condições de conservação da estrada não está acendendo, ou por um dos vinte e tantos pneus que compõem um conjunto do tipo bi-trem que está com a recapagem abaixo do estabelecido por provavelmente outro desconhecedor que fabrica leis a conveniência própria, ou por qualquer outro motivo legítimo ou forjado na hora pela autoridade policial. A mão que normalmente se estende para pegar o “cafezinho” de cada dia, naquele dia, foi incumbida de baixar a porrada em gente honesta e na classe trabalhadora que seguramente tem a maior jornada de trabalho neste país e, o fizeram com méritos e com louvor. Covardemente marcharam contra uma minoria que não se acovardou com o ato e bateram, machucaram e prenderam dezenas de pais de família, cumprindo assim o seu trabalho.
Eu, por algumas vezes já perdi dias em bloqueios de tribos indígenas, porque não foram repassados os seus direitos pela FUNAI, ou pelo MST que não tem nada a ver com rodovia, mas bloqueia as estradas para serem avistados pelas autoridades e depois da tragédia de Corumbiara-PA, nunca houve uma vez em que a força foi usada contra estes movimentos, pelo contrário, a PRF teme o MST e os apóia nos movimentos de bloqueio.
No entanto, contra nós motoristas profissionais que somos os reféns das estradas e as vítimas direta de tudo que nelas acontecem, o pau comeu no lombo. Nos índios, autoridade nenhuma tem coragem de fazer cumprir a lei, pois eles têm toda a proteção das entidades internacionais e dos Direitos Humanos. Nos militantes do MST, estes estão blindados pelos interesses políticos e, além de representatividade política, eles possuem uma militância que revida toda e qualquer forma de violência sem terem nada para perder, o treinamento em distúrbio populacional do efetivo da PRF, sobrou então para os motoristas.
Quem não tiver vergonha na cara, que atire a primeira “onça pintada” pela janela e continue a fabricar bandidos de uniformes que na hora em que convém a eles, fazem o papel do amigo do Zorro.
As leis existem para serem cumpridas sempre e por todos e não para somente se fazer valer para alguns e, quem as faz cumprir, precisa ter o discernimento para eliminar o excesso no rigor e idoneidade no seu cumprimento. A PRF travou uma luta judicial através do seu sindicato, pra não perder o direito de fiscalizar os veículos de cargas pelas notas fiscais, já que a fiscalização nas balanças rodoviárias está a cargo do DNIT. Se o seu patrão disser que a partir de hoje você não precisa trabalhar mais oito horas, só seis e o salário permanecerá o mesmo, você entra na justiça requerendo o direito de trabalhar às oito horas? Porque será que o efetivo estava tão preocupado com a perca desta atribuição tão indiferente às atribuições gerais da PRF?
Ps; pra quem não sabe, a expressão “amigo do Zorro” nasceu de uma passagem em que Zorro e seu fiel amigo Tonto cavalgavam pelo deserto e ao perceber que estavam cercados pelos índios, o Zorro falou – Tonto, acho que estamos cercados, e o Tonto respondeu – cercado está você, eu sou um deles!
Escrito por roberto.lamparina às 01h08
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