LÁGRIMAS DE CROCODILO
Um dia, folheando as páginas de uma revista semanal, a revista deles, dos caras da via destro, uma reportagem de capa chamou-me a atenção. Era uma reportagem exaltando o poder que o ACM exercia na Bahia, como ele conseguiu todo este poder e de onde emanava toda esta vitalidade política. Narrava à reportagem, que um grupo de amigos e colaboradores mais íntimos do ACM sempre se encontravam em uma praia em Salvador para tomar banho de mar e tomar água de coco. Este hábito semanal era marcado por um ritual que demonstrava claramente a influência do político extremamente conservador que ele sempre foi. Enquanto ACM não fosse até a beira da água e fosse banhado pelas ondas, nenhum dos seus fiéis acompanhantes se atrevia entrar na água primeiro do que o chefe.
Assim foi marcada toda a sua vida política, pelo poder que conseguiu amealhar em toda uma carreira política herdada pelo pai e que deixou também como herdeiros deste legado político, seus filhos e netos.
“Maquiavel” com suas artimanhas e armadilhas, perto de ACM era só um aspirante a querubim. Conspirou e ajudou na derrubada da democracia no golpe de 64. Na redemocratização apoiou Tancredo e novamente voltou a desfilar pousando na foto juntamente com democratas que verdadeiramente lutaram para que esta se viabilizasse. Novamente ocupando cargo no primeiro escalão no governo de Sarney, usou sua pasta como moeda de troca e aprofundamento das suas ligações políticas desta vez em âmbito nacional.
No curto governo Collor, foi um ardoroso defensor do collorido e um dos últimos a jogar a toalha quando a “casa caiu”.
No longo e interminável governo de FHC, aumentou ainda mais a sua fortuna pessoal e o seu poder, mesmo não sendo e nem estando tão próximo do governo como gostaria, chegando a ser atribuído pelas farpas e pelos constrangimentos que destinava a administração, como sendo o mais ardoroso emissor do “fogo amigo”.
No governo Lula, apoiou-o no segundo turno das eleições, não por afinidade política ou ideológica já que a sua era totalmente contrária daquele governo que se anunciava, mas para demonstrar o poder que ele sabia ser possuidor dentro das fileiras da provável oposição que já vislumbrava o PSDB/PFL. Apesar de ridicularizar pessoalmente o futuro governo e os seus aliados ideológicos, não teve forças físicas e vitalidade para compor uma oposição realmente à altura do seu histórico político, descobriu-se humano e também uma vítima da pior das misérias humanas, a condição imutável de mortal.
Um dos poucos “caciques políticos” dos tempos dos coronéis ainda em atividade, viu ainda minguar a sua munição política na derrota nas últimas eleições estaduais sofrida para um velho inimigo do PT baiano, deixando claro que ACM não era mais o mesmo e a Bahia não era mais a ovelha dócil que vivia e comia da mão do ACM.
Com todo este histórico, amado por alguns e odiado por muitos, construiu um império econômico invejável principalmente a partir dos serviços públicos, onde sempre manteve total controle no seu reduto e, pessoalmente escolhia e colocava estrategicamente os aliados na defesa dos seus interesses pessoais.
Como no Brasil as figuras políticas são idolatradas quando morrem, possivelmente não será diferente com o ACM, mesmo porque o ACM foi o grande patrocinador e patrono do maior conglomerado de mídia nacional que não perderá a oportunidade de relatar com ênfase as grandes realizações do patriarca baiano.
Eu pessoalmente acho uma tremenda injustiça o ACM ter partido agora. Bem que ele poderia ter esperado mais um pouquinho e levar consigo um dos seus ex-companheiros de UDN o paulista Paulo Maluf. Ficaria mais barato para a nação que não teria que chorar a morte dos dois (se é que é possível) separadamente, economizaríamos lágrimas de crocodilo. Se fosse possível separar a figura humana da figura política, eu recomendaria que a figura humana descansasse em paz e que a figura política que certamente continuará a rondar os corredores de Brasília, vá de reeeto...
Escrito por roberto.lamparina às 13h57
[]
[envie esta mensagem]

|